A Cicatriz Mais Dolorida de São Paulo – A História do Palacete Santa Helena

A cidade de São Paulo já teve um prédio, mais especificamente um palacete, considerado o mais belo de nossa história. Trata-se do Palacete Santa Helena.



O edifício recebeu esse nome em homenagem a esposa do empresário que o edificou. O primeiro nome “Santa” foi em respeito a toda religiosidade que cerca a Praça da Sé. O Palacete Santa Helena era de Manuel Joaquim de Albuquerque Lins, ex-presidente do Estado de São Paulo.

Como era comum na época, para realizar empreendimentos imobiliários era preciso ter muito dinheiro, como por exemplo: o proprietário dos palacetes Prates e do Edifício Dom Luiz  era Luís de Toledo Lara; o Palacete Chavante  pertencia ao senador Peixoto Gomingio; dos prédios Martínico e Guatapará a família Prado e o Edifício Martinelli era do empresário e comendador Giuseppe Martinelli.

Praça da Sé em 1927 com a nova Catedral em construção (no centro) e a esquerda o Palacete Santa Helena.
Praça da Sé em 1927 com a nova Catedral em construção (no centro) e a esquerda o Palacete Santa Helena.

A construção do Palacete foi encomendada à família Asson na década de 20. No início, a obra foi dirigida por Manuel Asson, que faleceu no primeiro ano da obra. Coube então aos seus filhos Adolfo Asson  e Luís Asson finalizar a construção. Adolfo também faleceu quando as obras do Palacete Santa Helena ainda estavam em andamento, sendo concluídas por Luís Asson.

O arquiteto responsável pela idealização do projeto foi Giacomo Corberi, sendo que também foi ele o profissional que realizou as primeiras alterações durante as obras. Ele redesenhou a fachada com aumento do 4º andar e inseriu o cine-teatro. Posteriormente, o Santa Helena teve alterações realizadas pelo arquiteto Giuseppe (José) Sachetti, referentes essencialmente ao desenho da fachada e aos três pavimentos adicionais.

Construção do Palacete Santa Helena, na Praça da Sé, em 1921.
Construção do Palacete Santa Helena, na Praça da Sé, em 1921.

Na época de sua construção, o Palacete Santa Helena era considerado um arranha-céu com seus sete pavimentos. Tratava-se de um prédio destinado ao comércio e serviços, constituído basicamente por lojas no térreo, duas sobrelojas e pavimentos superiores contendo 276 salas de escritórios.

O primeiro projeto previa um hotel, depois substituído por escritórios e um cine-teatro. As lojas situadas no subsolo tinham suas próprias instalações sanitárias, arejadas por meio de poços de ventilação. Os elevadores foram de fabricação Graham, divulgados na época como fruto da mais avançada tecnologia.

O cine-teatro, que levava o mesmo nome do Palacete, ocupava os três primeiros andares do bloco central, oferecendo aos seus espectadores uma área com camarote no mezanino e uma galeria no piso superior. No projeto original, estava previsto um salão de festas no subsolo (sob a plateia) que acabou se transformando posteriormente em outra sala de cinema, o Cinemundi.

A estrutura do teatro, considerada uma sala de espetáculo de grande porte. Segundo levantamento feito pela Companhia do Metropolitano, por ocasião da avaliação do prédio na década de 70, foi revelado que sua construção final tinha 36 frisas e 42 camarotes e o noticiário da época dá conta de que a lotação do teatro correspondia à ocupação de 1.500 lugares.

A inclusão do cine-teatro  no projeto representava um novo patamar para o empreendimento, que ganhava prestígio e se tornava uma nova aposta na movimentação cultural, coincidindo com a Semana de Arte Moderna de 1922.

Com toda essa gama de opções dentro de um único edifício, o Santa Helena caracterizou-se como o primeiro edifício multifuncional da cidade de São Paulo.

Destacava-se pelo luxo da decoração e pela modernidade das instalações, que exigiram cursos técnicos significativos para a época: elevadores, sistema de iluminação e telefonia, áreas internas, o teatro com máquinas para renovação do ar com capacidade para 160 metros cúbicos por minuto, revelando-se pioneiro em diversos aspectos.

A decoração interna e a pintura do teto do teatro ficaram a cargo do artista italiano Adolfo Fonzaris. É sua a pintura de um imenso painel na abóboda do edifício que ficou conhecida como “a História e a Fama do carro de Apolo”. A pintura era representada por cavalos fogosos. No alto, musas e outras figuras simbólicas, grupo de cupidos e a Glória, que empunhava uma coroa de louros.

A fachada do Palacete, junto com as de mais alguns edifícios, ajudou a Praça da Sé a ficar com ares de uma cidade europeia, antes mesmo das torres da Catedral.

A Conclusão das Obras

O Palacete foi concluído em 1925, pouco tempo antes da morte de seu proprietário. O seu cine-teatro iniciou suas atividades no ano seguinte e tinha como principal pauta de filmes as produções hollywoodianas. Contudo, o destino agiria contra esse belo edifício. A finalização das obras coincidiu com a decadência do centro da cidade de São Paulo. De um ano para o outro a região da Sé se viu tomada por uma população que não correspondia às pretensões elitistas e reformadoras do Centro de São Paulo.

Palacete Santa Helena
Palacete Santa Helena

Outro importante fator urbano contribuiu para essa “transformação indesejada”. Em um logradouro ali perto, o antigo Largo do Tesouro, ficavam os pontos finais dos bondes que vinham do Brás, Penha e de outros subúrbios de baixa renda que estavam em constante expansão.

Tomada nos anos 1920 pelos automóveis dos privilegiados, a Praça da Sé acabou sendo aproveitada como terminal de ônibus.

Na gestão do prefeito Prestes Maia (1938-1945), surgiu, ao seu lado, a gigantesca Praça Clóvis Bevilacqua, em local antes destinado ao Paço Municipal, transformada no principal terminal de transporte coletivo da cidade, atendendo toda a região Leste.

Com isso, as pessoas das regiões mais distantes do centro começaram a ter um acesso mais “fácil” à região. As pessoas mais ricas passaram a migrar cada vez mais para o lado oeste do centro, como: a região da Praça do Patriarca, a rua Líbero Badaró, Anhangabaú, Barão de Itapetininga, um Centro Novo de maior prestígio que passou a reunir o comércio de luxo e os serviços mais qualificados a partir do segundo pós-guerra.

Ao Centro Velho restou a decadência e seus prédios de salinhas apertadas, sem garagens e por receber a pedestrianização das vias, que acabaram se desvalorizando rapidamente. O Palacete Santa Helena, então, viu surgir uma nova vocação: a de pólo de artistas e movimentos operários.

Contendo uma grande quantidade de pequenas salas, que eram alugadas a preços módicos, o edifício começou a atrair profissionais de menor poder aquisitivo e organizações sindicais e de esquerda, que dependiam do esforço voluntário e das pequenas contribuições dos seus filiados.

Entre os ocupantes do edifício vale destacar que o Palacete abrigou o Sindicato dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo de 1934 até 1954, também o Sindicato dos Empregados no Comércio e várias outras organizações de esquerda, muitas delas vinculadas ao Partido Comunista, como o Centro Juvenilista, ligado à Aliança Nacional Libertadora (ANL) e a Juventude Popular, Estudantil e Proletária da qual fizeram parte o escritor Jorge Amado e o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda.

Praça da Sé nos anos 60, ainda com o Palacete Santa Helena à esquerda.
Praça da Sé nos anos 60, ainda com o Palacete Santa Helena à esquerda.

Em 1935,  quando a ANL preparava o Congresso Juvenil Comunista, o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), invadiu o edifício Santa Helena e prendeu várias pessoas, entre elas a jovem militante judia de origem romena, Genny Gleizer, de apenas 16 anos. Esta passagem ficou conhecida naquela época como “A Batalha da ”.

Com um grande número de operários e comunistas circulando por seus andares, as atuações no prédio não se limitaram à militância política e sindical.

Alguns se dedicaram às artes, com destaque para um grupo de pintores (vários deles originalmente ligados à construção civil) que formou o Grupo Santa Helena: Aldo Bonadei (1906-1974), Alfredo Rullo Rizzotti (1909-1972), Alfredo Volpi (1896-1988), Clóvis Graciano (1907-1988), Fulvio Pennacchi (1905-1992), Humberto Rosa (1908-1948), Manoel Martins (1911-1979), Mário Zanini (1907-1971) e Rebolo Gonsales (1902-1980).

O grupo começou a se formar a partir de 1934, quando os artistas foram chegando ao Palacete Santa Helena, n° 43 (posteriormente n° 247).

Contudo, tudo isso durou muito pouco. Após alguns anos, a maioria dos artistas deixou o prédio, assim como os sindicatos, que ganharam sedes maiores.

Dividido entre os herdeiros de Manuel Joaquim de Albuquerque Lins e Helena de Sousa Queiróz, o Santa Helena havia perdido suas atividades como empreendimento rentista. No auge da crise dos aluguéis e da Lei do Inquilinato de 1942, foi vendido ao IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários) em 1944.

Suas salas de cinema passaram a exibir produções baratas atraindo pessoas de baixo poder aquisitivo. Os conjuntos de escritórios eram alugados para os ocupantes mais diversos.  Um deles ofereceu um curso de madureza, o Educabrás, que ocupou parte do edifício nos anos 60, até a sua demolição. Muitas salas não encontraram sequer inquilinos e o prédio foi se esvaziando.

Esse processo foi se agravando até o ano de 1971, quando foi comprado pela Companhia do Metropolitano e demolido, junto com os demais edifícios da mesma quadra, com o propósito de ampliar a Praça da Sé, anexando-lhe a Praça Clóvis Bevilacqua, e possibilitar a construção das linhas Norte-Sul e Leste-Oeste do Metrô.

O Palacete Santa Helena começa a ser demolido na tarde do dia 23 de outubro de 1971 e, depois de 117 dias de marretadas, some do cenário da cidade de São Paulo

18 comentários em “A Cicatriz Mais Dolorida de São Paulo – A História do Palacete Santa Helena

  • 30 de novembro de 2015 em 19:19
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    Gostei muito da matéria. Gostaria de saber se possuem algo com referência a uma escola que ficava exatamente na parte da Clóvis Bevilaqua, do mesmo edificio. A escola se chamava Escola Tecnica de Comércio de São Paulo.Grata.

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    • 9 de maio de 2019 em 19:10
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      Que pena o Brasil não saber conservar uma arquitetura tão linda ,fiquei triste .

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  • 1 de janeiro de 2017 em 11:55
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    Triste saber que os governantes nunca pensa no povo. Pensam sempre em encher os bolsos com obras superfaturadas e desnecessárias, destruindo a memória de uma cidade. Vejamos a Praça da Sé em que se tornou atualmente.

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    • 7 de maio de 2019 em 13:07
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      Adorei à materia ,muito bom saber à história do palacete Santa Helena.

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  • 7 de maio de 2019 em 13:03
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    Adorei, muito bom saber à história do palacete Santa Helena.

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  • 30 de junho de 2019 em 11:25
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    Excelente matéria, Giacomo Corberi arquiteto responsável pelo projeto do palacete é meu Tataravô, triste nao poder sentir esta bela obra arquitetônica de perto e reviver muitas histórias, mas feliz pela pequena lembrança, obrigado pela matéria!

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    • 30 de junho de 2019 em 12:06
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      Ela será melhorada assim que eu concluir a leitura de um material fantástico que tenho aqui. Obrigado pelos elogios e seja sempre bem-vindo!

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      • 4 de julho de 2019 em 07:39
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        Parabéns Abrahão pela fantástica viagem ao tempo. Como se diz, quem não tem memória, não tem história. Grato por trazer à nossa memória os que muitos de nossos governantes não.fazem: preservação do patrimônio histórico.
        E que você nos brinde com mais recordações e histórias de nossa São Paulo.

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  • 4 de julho de 2019 em 01:42
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    … lindas e empolgantes histórias de nossa São Paulo que tanto amamos. Referência nacional em trabalho e desenvolvimento transformados em polo econômico e cultural e hoje mais do que nunca, político. Parabéns e obrigado pela matéria… abcs.

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  • 4 de julho de 2019 em 07:39
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    Parabéns Abrahão pela fantástica viagem ao tempo. Como se diz, quem não tem memória, não tem história. Grato por trazer à nossa memória os que muitos de nossos governantes não.fazem: preservação do patrimônio histórico.
    E que você nos brinde com mais recordações e histórias de nossa São Paulo.

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  • 4 de julho de 2019 em 10:43
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    Lembro muito bem deste edifício quando menina .As estórias do cinema e sua suntuosidade. Os pintores que tinham ateliê nele. A semana de 22.A Catedral. E depois as discussões sobre a demolição.Finalmente a demolição onde estive presente. Memórias ainda vivas do Santa Helena!!
    Marina Donelli, arq.

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  • 4 de julho de 2019 em 15:09
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    Foi uma pena os técnicos do Metrô não terem estudado melhor pela preservação do espaço urbano tão rico!
    Lembro-me de assistir os seriados de Tom Mix, no cine Santa Helena.

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  • 4 de julho de 2019 em 15:37
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    Como fui ignorante na época da demolição! Já tinha 21 anos e pouco me lembro .Hoje tenho outro olhar para essas obras desapercidas. Quem não preserva , não tem história para contar .

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  • 4 de julho de 2019 em 16:49
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    Que bela história do famoso palácio Santa Helena, que eu já conheci em decadência como escola de curso “Madureza” e cine pornô, mas, ainda criança, admirava a bela arquitetura do edifício.

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  • 6 de julho de 2019 em 00:02
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    Uma beleza arquitetônica que deixamos de ter.
    Conheci o cine-teatro Santa Helena já na fase decadente, mesmo assim, percebia-se a suntuosidade que havia sido décadas anteriores. Se minha memória, não me enganar, um pouco acima, na mesma calçada, havia outro cinema – O cine Mundi. Sou um apaixonado por cinemas e posso dizer que conheci a maioria que funcionaram na cidade de São Paulo, incluindo os auto-cines.

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  • 8 de julho de 2019 em 13:32
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    Essa é uma das mais relevantes histórias de São Paulo, com toda a sua evolução, um monumento como este teria que ser preservado, por ser uma obra faraônica, reqintada e muito avançada para os padrões da época, ao invés de demolir essa maravilha, deviam transformá-lá num grande museu para visitação pública, e que o seu interior fosse ilustrado com a história do desenvolvimento social, cultural e evolutivo da nossa querida São Paulo.

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