A história de luta da PUC-SP

Uma das universidades mais tradicionais da cidade de São Paulo , a PUC-SP, também é dona de uma das mais belas histórias de vida e superação. Parece estranho se referir a uma instituição dessa maneira, mas durante o texto vocês entenderão o que quero dizer. A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) foi fundada no ano de 1946, a partir da união de duas outras faculdades: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento (fundada em 1908) e da Faculdade Paulista de Direito.

Anos depois, por no final da década de 60,  a PUC-SP começou a desenvolver aquela que seria sua essência e fator de grande reconhecimento: a qualidade acadêmica. Mas sua história mudaria mesmo na década seguinte, os inesquecíveis anos 70.

Foi durante essa década que o Brasil sofreu com a ditadura militar. Era um tempo de ideias reprimidas, grande censura e medo da livre expressão. Mas a PUC representou um desafogo para os corajosos. Uma de suas primeiras medidas para mostrar que não havia medo da repressão foi contratar professores que foram obrigados a sair das universidades públicas. Foi nesse cenário que grandes intelectuais brasileiros como Florestan Fernandes, Octavio Ianni e Bento Prado Jr. Fizeram parte do corpo docente da universidade.

A universidade também demonstrou sua “rebeldia” ao sediar, no ano de 1977, a 29° Reunião da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, proibida pelos militares de acontecer em instituições públicas. Quando estudantes se reuniram em frente ao Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), para celebrar a reorganização da UNE (União Nacional dos Estudantes), a Polícia Militar invadiu o campus Monte Alegre e prendeu professores, alunos e funcionários. Também foram jogadas bombas em todos os manifestantes e apoiadores da ideia.

Tudo isso aconteceu no ano de 1977. E o Jornal do Brasil (Foto desse texto) relata bem o que aconteceu naquele dia:  “Pelos primeiros cálculos, cerca de 3 mil pessoas – 2 mil alunos em aulas, mais funcionários e professores da PUC, além dos manifestantes, que se encontravam defronte e no interior da Escola – foram detidas pela polícia e confinadas num estacionamento… Depois de 10 minutos de violência, com uso de bombas, elementos da tropa de choque e agentes do DEOPS dominaram a situação, sob o comando direto do Secretário de Segurança Pública, Coronel Antônio Erasmo Dias”.

A invasão aconteceu devido a uma reunião ocorrida dentro da universidade. Aproximadamente ao meio dia, iniciou-se no Salão Beta na PUC uma Assembléia Estudantil Metropolitana.

Essa Assembléia visava a decidir as medidas a serem tomadas em protesto pelo cerco policial da USP (Universidade de São Paulo), da PUC (Pontifícia Universidade Católica) e da FGV (Fundação Getúlio Vargas), no dia 21, que impediu a realização do III Encontro Nacional dos Estudantes (ENE). Encerrada às 14 h., deliberou a realização, à noite, em frente ao TUCA, de um Ato Público de repúdio à repressão ao III ENE.

Ao mesmo tempo, ocorreu em condições precárias, o III Encontro Nacional dos Estudantes da PUC, em que vários delegados (líderes do movimento) se reuniram para decidir qual frente tomar. Às 21 horas, iniciou-se o Ato Público, com a presença de cerca de 2.000 estudantes. Estava sendo lida, em coro, uma Carta Aberta denunciando as medidas policiais tomadas no dia 21, quando nas esquinas das ruas Monte Alegre e Bartira, pararam várias viaturas policiais comandadas pelo Secretário de Segurança Pública do Estado.

Investigadores civis e tropas de choque desceram das viaturas, bateram as portas com violência e começaram a dar cacetadas e a jogar bombas nos manifestantes que se encontravam sentados. Os relatos da época ilustram essa invasão como uma das mais violentas já vistas durante o período da ditadura. No estacionamento de automóveis, mais de 1.500 professores, funcionários e alunos ficaram sentados pelo menos uma hora no chão de pedregulhos, submetidos à triagem policial.

Cerca de 700 pessoas foram conduzidas ao Batalhão Tobias de Aguiar. Alguns foram conduzidos ao DEOPS (Delegacia Estadual de Ordem Política e Social). Todos foram fichados. Entre os presos, havia grande número de estudantes que estavam sem documentos por tê-los perdido durante a invasão. Dessas 700 pessoas, 37 foram logo em seguida enquadrados na Lei de Segurança Nacional.

De outro lado, a autoridade que assumiu a responsabilidade pela invasão e pelas violências cometidas foi agraciado pelo Ministro do Exército com a “Medalha do Pacificador”, a mesma que foi atribuída ao Dr. Harry Shibata (Médico legista que ficou conhecido por ter assinado o atestado de óbito de Vladimir Herzog, em 1975, declarando que ele havia se suicidado, apesar de todas as evidências de que ele havia sido torturado e morto nas dependências do DOI-CODI de São Paulo, como foi comprovado posteriormente).

Com o fim da ditadura militar a PUC mantém seu espírito liberal até hoje.

Os anos 80 e 90 foram importantes para essa instituição de ensino consolidar ainda mais seu nome no que tange o desenvolvimento acadêmico e comunitário (com o aumento de cursos de graduação e pós-graduação, de pesquisas a criação da Coordenadoria Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão, Cogeae, voltada para a educação continuada).

O começo do século XXI foi marcado pela expansão das atividades da PUC. Academicamente, às áreas de reconhecida excelência e tradição se juntaram outras, inovadoras. Além disso, a Universidade abriu campi em outras regiões da cidade e do Estado de São Paulo (Santana, Ipiranga e Barueri).

Mesmo com todas essas mudanças, a PUC-SP conseguiu se preparar para enfrentar os desafios e tem sido agraciada com  os últimos rankings oficiais de instituições superiores do Ministério da Educação (MEC) que, em diversos anos, apontam a PUC-SP como a melhor universidade particular de todo o Estado de São Paulo e a segunda melhor do Brasil.

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