As cartas de Anchieta e a “certidão de batismo” de São Paulo

Para todos os pesquisadores e curiosos sobre a história de São Paulo, é muito difícil encontrar registros confiáveis sobre o começo da cidade. Pelas instalações precárias da época, pela dificuldade de escrita (eram poucos os que dominavam essa habilidade) e pelo problema de armazenar esses documentos, tratam-se de anos muito pouco documentados e lembrados. Entretanto, mesmo com todas essas dificuldades, alguns registros sobreviveram e, por muita sorte, tive acesso a um livro, intitulado “Minhas Cartas, por José de Anchieta”, onde os primeiros passos de São Paulo são destacados, de maneira nua e crua, mostrando o começo da vila de Piratininga.

Como gosto de dar as referências e os créditos a quem merece, vamos lá. O livro foi editado pela Associação Comercial de São Paulo e, particularmente, imagino que ele foi desenvolvido para as comemorações dos 450 anos da cidade. A obra conta com 12 cartas do Apóstolo do Brasil e, aos poucos, vou trazendo as principais curiosidades e trechos para que possamos aproveitar bastante essa obra.

Nesse primeiro momento, gostaria de explicar um pouco do contexto dessas cartas e como elas foram salvas/expostas, enfim, como elas chegaram ao conhecimento público e, mais do que isso, como sobreviveram TANTO tempo.

As cartas que estão na obra fazem parte do tomo “Epistolae Venerabilium S.J. – EPP. NN95”. Nesse tomo estão 129 documentos, a maioria cartas escritas por jesuítas de todo o mundo entre 1553 e 1774. Essa obra faz parte do acervo do Arquivo Romano da Companhia de Jesus (ARSI), que fica sediado em Roma, e, até então, nunca havia saído de lá, sendo à viagem para São Paulo, portanto, a primeira dessa obra histórica.

O ARSI remonta ao ano de 1540, ou seja, surgiu praticamente ao mesmo tempo que a famosa Companhia de Jesus, sendo as duas, iniciativas de Ignácio de Loyola. Esse visionário, procurando sempre ter registros de tudo que acontecia com seus enviados, solicitava que os Superiores da Companhia escrevessem ao Provincial e, este, fizesse  um registro geral ao Padre Geral a cada quatro meses.

A recomendação de Loyola era a de dar todas as informações daqueles meses, em especial sobre os trabalhos missionário e religioso. Outro ponto importante era o de que esses religiosos deveriam escrever duas versões das  cartas: uma em latim e uma na língua do território onde estava alocado.Essa preocupação se mostrava válida, tendo em vista que muitos documentos acabaram perdidos, como a primeira carta de São Paulo, como veremos adiante.

Por outro lado, em alguns casos, todos davam sorte: uma das cartas escritas por Anchieta, de 1560, possui três versões idênticas, provavelmente um capricho do jesuíta que, cuidadoso, decidiu criar mais de uma cópia para manter o registro da história vivo.

Como citado acima, mesmo com esse procedimento, várias cartas acabaram se perdendo. A que seria a “verdadeira certidão de batismo de São Paulo”, escrita em 1554, e que abordava o período de janeiro a junho, se perdeu. Como é possível concluir, seria o documento mais antigo a falar da nossa cidade.

Transcrevo um trecho da Carta de Anchieta datada de 1º setembro de 1554, documento que mostra as dificuldades e a precária infraestrutura da nossa atual metrópole e que, como citado, é considerada a “certidão de batismo” de São Paulo:

Para o sustento destes meninos, a farinha de pau era trazida do interior, da distância de 30 milhas. Como era muito trabalhoso e difícil por causa da grande aspereza do caminho, ao nosso Padre (Nóbrega) pareceu melhor no Senhor mudarmos-nos para esta povoação, de índios que se chama Piratininga. Isto por muitas razões: primeiro, por causa dos mantimentos; depois, porque se fazia nos portugueses menos fruto do que se devia…Por isso, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia no ano do Senhor de 1554, chegamos a ela a 25 de janeiro e celebramos a primeira missa numa casa pobrezinha e muito pequena no dia da conversão de S.Paulo, e por isso dedicamos ao mesmo nome esta Casa. De tudo isso escrevi por miudo na carta precedente que abrangeu até o mês de junho…

Residimos aqui ao presente oito da Companhia, aplicando-nos a doutrinar estas almas e pedindo à misericórdia de Deus Nosso Senhor que finalmente nos conceda acesso a outras mais gerações, para serem subjugados por sua palavra. Julgamos que todas elas se hão de converter muito facilmente à fé, se lha pregarem”.

Conforme eu for lendo o livro, separarei mais registros curiosos sobre o tema e as cartas de Anchieta e vou trazendo novidades para todos vocês. Espero que gostem!

Referênciashttps://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia-e-Redes-Sociais/Cartas-ineditas-de-Anchieta-chegam-a-Sao-Paulo/12/6326

https://gvcult.blogosfera.uol.com.br/2015/02/12/as-cartas-de-jose-de-anchieta/ 

Livro: Minhas Cartas, por José de Anchieta

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