A Primeira Expressão Arquitetônica Moderna – A Casa Modernista

História de São Paulo Monumentos

Além de grandes entidades, como a Igreja Nossa Senhora da Saúde e o Hospital Santa Cruz, a região que possui o mesmo nome da estação do Metrô, também tem a primeira obra de arquitetura modernista implantada no Brasil: a Casa Modernista.

Com o projeto arquitetônico assinado pelo russo Gregori Warchavchik, o edifício foi projetado em 1927 e construído em 1928.  Nessa época, a cidade de São Paulo passava por um intenso processo de industrialização e urbanização, com uma elite voltada aos costumes franceses e com a imigração de mão de obra para as fábricas paulistanas.

Fachada da Casa Modernista em 1928
Fachada da Casa Modernista em 1928

Na área cultural, São Paulo começava a ser alvo de diversas manifestações artísticas, sendo a Semana de Arte Moderna de 1922 o evento mais emblemático e marcante do movimento moderno.

Ao que tudo indica, o movimento buscava se construir e, tal agitação cultural, não encontrava correspondência na arquitetura. Só no ano de 1925 seria publicado o primeiro documento voltado a uma arquitetura moderna: Acerca da Arquitetura Moderna, do mesmo arquiteto, Gregori Warchavchik.

Planta da Casa Modernista
Planta da Casa Modernista

Assim, o primeiro exemplar arquitetônico moderno só seria consolidado anos depois, com a inauguração da Casa Modernista. Criada para ser a residência do próprio arquiteto, que acabara de se casar com Mina Klabin, a casa gerou um grande impacto entre os intelectuais da época.

Sem qualquer ornamento, a casa é formada por volumes bancos e, para se ter ideia de como o projeto era moderno para a época, para conseguir a aprovação junto à prefeitura, o arquiteto apresentou um projeto cheio de detalhes na frente e, ao concluir a obra sem nada daquilo apresentado, alegou falta de recursos para concluir o edifício.

Os jardins da residência também são um caso à parte. Projetado por Mina Klabin, ele ficou conhecido pelo uso de espécies tropicais, uma grande novidade para os anos 20.

Warchavchik, em carta destinada ao secretário do CIAM (Congresso Internacional de Arquitetura Moderna), Siegfried Giedion, relatava as inúmeras dificuldades que teve que enfrentar durante a construção – desde a aprovação já mencionada à dificuldade de encontrar componentes industrializados, como ferragens, maçanetas, placas, tintas, etc., o alto preço de materiais como cimento e vidro e a formação técnica da mão de obra.

Interior da Casa Modernista
Interior da Casa Modernista

O resultado final traz grandes características que chamam a atenção. Em um primeiro momento, é possível observar a fachada que obedece um eixo simétrico. Além disso, a casa que aparentava ter sua própria geometria é, na verdade, construída segundo as técnicas tradicionais. Mesmo com todos esses detalhes, é importante ressaltar que se trata de uma obra de transição e pioneira para sua época.

Sobre o aspecto construtivo, é bom compreender que as Villas ideais de Le Corbusier, produzidas à mesma época na França, apresentam contradições similares e nem por isso são questionadas quanto a sua importância para o processo de renovação iniciado por este arquiteto.

Cerca de sete anos após sua inauguração, a Casa Modernista teve que passar por uma reforma para receber mais membros da família Warchavchik. Ao mesmo tempo em que alterava alguns cômodos, o arquiteto inovava em outros segmentos.

O acesso principal, por exemplo, começou a ser realizado pela lateral, onde foi colocada uma marquise. A cozinha, por sua vez, foi ampliada e a varanda lateral deixou de existir, dando lugar a ampliação da sala de estar que ainda ganha um novo volume curvo, cuja laje dá lugar a um novo terraço que circunda o quarto da esposa. O piso superior também ganhou algumas melhorias, como a inserção de um novo sanitário servindo o quarto do marido e de um closet, entre o quarto da esposa e o quarto do filho, anteriormente, quarto de costura.

No período da segunda guerra, o jardim passou por uma grande ampliação, quando Mina Klabin resolveu plantar um lindo bosque de eucaliptos próximo ao muro frontal, para que a família tivesse uma privacidade mínima do Hospital Santa Cruz, que começava a se erguer em frente a casa.

Nesse período, a garagem foi ampliada para receber uma oficina de gasogênio, um combustível que substituiu a gasolina durante a guerra. Nos anos seguintes, algumas poucas alterações ocorreram para atender às necessidades da família, mas de modo geral, a estrutura se manteve a mesma até os dias de hoje.

A família morou por lá até a década de 70 quando decidiu vender a propriedade. No ano de 1983, uma construtora decidiu entrar com um projeto de implantar um condomínio residencial naquele terreno, o que foi combatido pela população local, que cria a “Associação Pró-Parque Modernista”, se mobilizando pela defesa da casa e de sua área verde.

Em 1984, o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) tomba o conjunto, através da Resolução SC 29/84; seguido pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), processo 1121-T-84; e, posteriormente, pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), Resolução 05/91. Com isso, o empreendimento se inviabiliza, e os proprietários entram na justiça contra o Estado.

Em 1994, é dada a sentença, na qual o Estado é obrigado a indenizar o proprietário e a comprar o imóvel – situação que não reverteu o processo de deterioração, devido à falta de política de ocupação e conservação do imóvel, sendo este objeto de furtos e invasões frequentes.

Nos anos 2000 são realizados projetos e obras para a recuperação da Casa Modernista, divididas em uma primeira etapa entre 2000 e 2002 e, posteriormente, entre 2004 e 2007. Em março de 2008, a prefeitura passou a ser a gestora do imóvel, tendo o governo do Estado transferido a ela a responsabilidade pelo seu uso e manutenção.

No mês de dezembro de 2011 foi contratado um projeto executivo para o restauro e adequação da casa e edículas, contemplando a valorização dos bens existentes, a implantação de espaços de convivência no parque, adequação à acessibilidade e criação de um espaço de referência para o estudo do modernismo em São Paulo, buscando diversificar o público visitante. A casa e o parque permanecem, atualmente, abertos e oferecem serviços educativos aos visitantes.

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