O Mecenas Apaixonado Por Arte – A Contribuição de Ciccillo Matarazzo

A família Matarazzo contribuiu com grandes nomes para o desenvolvimento de São Paulo e, também, do Brasil. Além do mundialmente famoso conde Francisco Matarazzo, outro nome que merece grande destaque é o de Francisco Matarazzo Sobrinho, nascido no dia 20 de fevereiro de 1898, me São Paulo, sendo filho de Andrea Matarazzo e Virgínia Matarazzo. Homem de grande formação cultural, já que viveu na Europa grande parte da sua vida e estudou engenharia em Liège, na Bélgica, Matarazzo Sobrinho foi o administrador de parte do conglomerado das indústrias da família. Quando o grande império erguido por seu tio começou a se desmembrar, Sobrinho se tornou o único proprietário e administrador da Metalúrgica Matarazzo-Metalma.

A partir do meio dos anos 40, Ciccillo começou a estreitar relações com grandes intelectuais da época e, em especial, com os sábios de projeção da Universidade de São Paulo (USP). Suas principais amizades nessa época foram o crítico de arte Sérgio Milliet e o arquiteto Eduardo Kneese de Mello. Graças a essas boas influências, Matarazzo começou a se interessar cada vez mais pelas artes e começou a fomentar um sonho de criar um museu totalmente dedicado à produção artística moderna paulistana. Contudo, esse objetivo teria que esperar algum tempo antes de ser consolidado.

No ano de 1947, Ciccillo se casa com Yolanda Penteado, uma importante integrante de uma tradicionalíssima família da cafeicultura paulista. Além disso, logo após seu casamento, devido a grandes problemas de saúde, ele passa uma temporada em um sanatório na cidade de Davos, na Suíça, onde se torna um grande amigo de Karl Nierendorf, galerista alemão que trabalhava nos Estados Unidos. Nesse momento, surge a ideia em sua cabeça de criar uma exposição de arte abstrata em um museu que, em seus sonhos, ele gostaria de fundar.

O Sonho, Enfim, Se Torna Realidade

Com todas essas amizades poderosas e influentes, a ideia de Ciccillo em criar um museu não demoraria a dar certo. Graças à ajuda do grande industrial norte-americano, Nelson Rockefeller, da Standard Oil, ele consegue um bom acordo de cooperação com o Museum Of Modern Art – MOMA (Museu de Arte Moderna de Nova York). A partir de então, o milionário assume a responsabilidade do projeto para a criação do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP).

O estatuto magno da instituição é criado no ano de 1948 e, no ano seguinte, o espaço dedicado aos artistas modernos é inaugurado na Rua Sete de Abril, no número 230, no mesmo prédio de Assis Chateaubriand, onde funciona o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp. Quase dez anos depois, em 1958, o MAM é transferido para o Parque do Ibirapuera.

A Grande Mostra Inaugural

Para que a primeira mostra do MAM fosse do tamanho das pretensões de seu fundador, foi chamado o grande Léon Degan, um famoso crítico de arte belga que vivia em Paris e, sobre seus ombros, foi colocada a responsabilidade de organizar a exposição inaugural do museu.

Com o tema Do Figurativismo ao Abstracionismo, primeira mostra coletiva de arte não figurativa realizada no Brasil, com artistas europeus como Jean Arp , Alexandre Calder, Robert Delaunay, Wassily Kandinsky, Francis Picabia, Victor Vasarely e Flexor além dos brasileiros Cicero Dias e Waldemar Cordeiro.

Apesar de Ciccillo não esconder sua preferência pela chamada arte acadêmica, ele acaba reconhecendo a importância da abstração artística e, com o impacto da mostra, começa a adquirir diversas obras do Novecento, período em que artistas futuristas italianos começaram a seguir tendências do cubismo e a influencia da formação artística francesa.

Como Degand ficou pouco tempo na diretoria do MAM, o milionário italiano decidiu que era o momento de aumentar o acervo da exposição com peças da modernidade internacional e, sob os conselhos de Lourival Gomes Machado, forma o núcleo inicial de sua coleção brasileira.

Paralelamente a isso, junto ao seu amigo de infância, o engenheiro Franco Zampari, Ciccillo cria, em 1948, o Teatro Brasileiro de Comédia e, em 1949 a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, as duas em São Paulo.

Outros Incentivos À Cultura e o IV Centenário

Amante incansável das artes, o rico italiano foi o idealizador e o principal responsável pela consolidação e realização da Bienal Internacional de São Paulo. A primeira edição aconteceria em 1951 na área do recém-demolido Trianon, na Avenida Paulista.

Sua ideia sempre foi a de proporcionar aos brasileiros a possibilidade de ter contato com os diversos movimentos artísticos do século XX e projetar São Paulo como o centro artístico mundial. Um plano bastante ousado que ele trabalhou muito para tornar realidade.

Com o passar do tempo, seu empenho na divulgação e ampliação dos espaços artísticos paulistanos foi reconhecido e Ciccillo acabou presidindo a Comissão do IV Centenário da cidade de São Paulo. Junto à comissão, Matarazzo escolhe o Ibirapuera para sediar a maior parte dos eventos e, com o plano de construir um grande parque, pede ajuda ao grande arquiteto Oscar Niemeyer.

Francisco Matarazzo Sobrinho apresenta maquete do Parque do Ibirapuera aos membros da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo e esclarece modificações do projeto original. 1953. Foto: Alvaro Matias
Francisco Matarazzo Sobrinho apresenta maquete do Parque do Ibirapuera aos membros da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo e esclarece modificações do projeto original. 1953. Foto: Alvaro Matias

Após o grande sucesso das comemorações de 1954, Matarazzo continuou seus projetos e, em 1962, recebe separar a bienal do MAM e, para isso, cria a Fundação Bienal.

No ano seguinte, o mecenas doa todo o acervo do museu à USP e, em reconhecimento a essa doação, recebe da reitoria da universidade o título de doutor honoris causa.  Ciccillo acabaria falecendo no ano de 1977, após uma vida cheia de contribuições artísticas para a cidade de São Paulo.

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