Uma Construção Esquecida – O Edifício Guinle

Centro História de São Paulo

A montagem arquitetônica da cidade de São Paulo, como a conhecemos hoje,  passa por momentos de “surpresa” da população e de inovação por parte de engenheiros, arquitetos e gestores do poder público paulistano. Uma das histórias mais interessantes que cerca o centro de SP tem relação com o “primeiro” arranha-céu da cidade. É sabido que o Sampaio Moreira, que fica na Líbero Badaró, é conhecido e chamado, até mesmo por nós da SP In Foco, de “avô dos arranha-céus de São Paulo”, devido a imponência e altura de sua concepção, em 1924.

O que muita gente desconhece é que, doze anos antes, a Prefeitura havia recebido pedidos de construção de um edifício que, talvez, mereça a alcunha de primeiro arranha-céu paulistano, por ter sido o primeiro a romper a simetria e harmonia existente na cidade.

A São Paulo Da Década de 1910

O começo do século XX, em São Paulo, é caracterizado por um período de obras, o que, praticamente, transformava a cidade em um grande canteiro de obras. Alargamentos de ruas e avenidas; retificações viárias e várias outras intervenções faziam parte da rotina dos paulistanos que circulavam por aqui.

Mais do que intervenções urbanas para a melhoria da cidade, a Prefeitura de SP queria, a todo custo, acabar com a velha arquitetura luso-brasileira que insistia em permanecer no chamado “Triângulo”, formado pelas Ruas Quinze de Novembro, São Bento e Direita, e em suas redondezas. Para atingir esse objetivo, o poder público chegou a fazer diversos acordos com os proprietários de várias construções para garantir que os novos edifícios fossem reconstruídos com um novo alinhamento que fosse compatível com o novo projeto que a elite paulistana, já sob influência das tendências europeias, sonhava para a capital.

Dessa maneira, novos logradouros começavam a surgir, como a Praça Antônio Prado e em 1904; a Rua 15 de Novembro, entre 1904 e 1913. A Câmara Municipal, por sua vez, se preocupava em aprovar leis e emendas que fossem capazes de renovar a planta de edifícios da cidade.

E essa preocupação chegava ao ponto de oferecer, até mesmo, incentivos fiscais à aqueles que tivessem interesse em erguer edifícios com fachadas aprovadas pelos órgãos municipais. Como cartada final, a prefeitura chegou a pagar prêmios anuais, durante dois anos, que eram distribuídos entre os proprietários dos prédios mais perfeitos do ponto de vista arquitetônico.

Um Padrão Para As Construções Paulistanas

Em setembro do ano de 1912, um engenheiro chamado Sá Rocha, foi o responsável por analisar o projeto de construção de um edifício de “cimento armado”, com oito andares, que seria construído na Rua Direita. A obra, concluída, teria 32 metros de altura, o que representa o dobro da altura dos prédios ao redor, em sua maioria, construções com três andares e erguidos no final do século XIX.

O engenheiro não viu nenhum impedimento para a realização do projeto que, por sua vez, serviria como sede dos escritórios da Guinle & Cia. Contudo, a altura que o prédio alcançaria estava fora dos padrões observados até então para o centro da cidade. Os edifícios mais imponentes daquela época eram o João Brícola, a casa Martinico e a Casa do Barão de Iguape.

No canto esquerdo da foto, vemos a silhueta do Edifício Guinle rompendo com a "média" dos edifícios paulistanos em 1916.
No canto esquerdo da foto, vemos a silhueta do Edifício Guinle rompendo com a “média” dos edifícios paulistanos em 1916.

Estima-se que o problema desse edifício não era sua altura, mas sim o fim da simetria que era implantada no centro da cidade. Para repassar à responsabilidade da decisão à Câmara Municipal, Sá Rocha fez um grande levantamento, observando regulamentações da Europa, Estados Unidos e da vizinha Argentina, para saber como funcionava esse processo por lá.

Nos EUA, por exemplo, eram permitidas construções de até 70 metros, enquanto Paris e Buenos Aires, os edifícios poderiam chegar a 30 metros. Documentos e relatórios prontos, tudo foi encaminhado à Câmara e a Comissão de Obras.

Em um primeiro momento, o poder público queria limitar a construção do prédio, já que a edificação não deveria ultrapassar duas vezes e meia a largura da via. Assim, o prédio só poderia ter 28,60 m de altura por ter aí a via pública 11,45 m de largura média. Essa solução, entretanto, não foi totalmente aceita pela Comissão de Justiça. Os membros batiam na tecla de que, sem estudos aprofundados, não se podia estabelecer esse limite como o final.

O Patrono do Ensino da Engenharia: Francisco de Paula Sousa

Após muitos debates, ficou estabelecido, através da Resolução n°32, de 23 de novembro de 1912, que o prédio seria erguido com a altura de 32 metros. Vale lembrar algumas contribuições decisivas, como a de Hipólito Pujol Jr e a visita do grande engenheiro Antônio Francisco de Paula Sousa, então diretor da Escola Politécnica, que fez o prefeito  Barão de Duprat ficar convencido da estabilidade e viabilidade da obra.

O Edifício Guinle e a Atuação de Pujo Júnior

Embora o projeto do Guinle tenha sido aprovado com 32 metros de altura, sua estrutura acabou recebendo mais duas edículas, que ficavam acima da cobertura, o que lhe rendeu a altura final de 36 metros. Projetado por Hipólito Gustavo Pujol Júnior e Augusto de Toledo, o edifício fez parte da história da verticalização da nossa cidade por possuir o mais alto arcabouço de concreto erguido em São Paulo na época de sua construção (1913 – 1916).

Vale dizer que, Pujo Júnior, foi um pioneiro na técnica do concreto armado em construções paulistanas. Formado pela Politécnica em 1905, Pujol se sentiu atraído pelo estudo da resistência dos materiais e, assumiu em 1906, a direção do Gabinete de Resistência dos Materiais de sua antiga escola. No ano de 1907, publicou o primeiro estudo da tecnologia do concreto armado no Brasil e, anos depois, passou a lecionar sobre o tema.

Para a realização do Prédio Guinle & Cia., em que foram empregadas vigas vencendo vãos de 12 m de extensão, baseou-se Pujol Júnior em experiências por ele mesmo conduzidas no laboratório em que trabalhava.

Parece estranho pensar que, para a construção de um “pequeno” prédio como esse, foi necessário ter toda uma autorização do poder público paulistano. Uma pena que não se estabeleceu um limite máximo para o erguimento de prédios, o que transformou SP em uma grande paisagem cinza.

3 thoughts on “Uma Construção Esquecida – O Edifício Guinle

  1. Boa tarde voçes teriam mais fotos e historias da regiao da liberdade onde hoje existe a igreja das almas? Ditos populares dizem que ali funcionava um matadouro de pessoas . voçes poderiam verificar tal historia ? Obrigado ….ah tambem da regiao do jaragua e suas jazidas de pedras preciosas ???

  2. Boa tarde, Eu gostaria de conhecer a história do bairro Bela Vista, por um acaso vcs possuem informações? O bairro não tem Bandeira?agradeço antecipadamente

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