A Primeira Transmissão de Rádio de SP: A Iniciativa de Landell de Moura

Nascido no dia 21 de janeiro de 1861, na cidade de Porto Alegre, Roberto Landell de Moura tem descendência inglesa e, muito cedo, aprendeu a ler com seu pai, o capitão Ignácio José Ferreira de Moura. Assim que começou a aprender a ler e a escrever, Landell demonstrava um grande interesse pela ciência, sendo um observador dos fenômenos naturais. E sua vocação era impressionante, tendo em vista que, aos 16 anos, tentou reconstruir o telefone de Graham Bell.  Era, também, um apreciador da boa cultura, sendo muito interessado por música, poesia e filosofia.

Após concluir os estudos em Humanidades, transfere-se para o Rio de Janeiro e, em 1878, parte com o irmão para Roma, onde ingressa no Colégio Pio Americano. Além dos estudos religiosos, dedica-se também ao aprendizado de Ciências Físicas e Químicas na Universidade Gregoriana, com ênfase nos estudos de eletricidade.

Em outubro de 1886 ele é ordenado sacerdote, ocasião em que realiza a sua primeira missa. Durante a estadia em Roma, desenvolve a “Teoria da unidade das forças físicas e a harmonia do universo”, abordando o movimento e o equilíbrio das forças da natureza. Em uma breve estadia em Paris, ao observar o movimento do ar quente, imagina a possibilidade do envio de mensagens através dele.

Landell era um homem muito inteligente e, em um caso específico, chegou a dar palestras sobre ciências para o Imperador D. Pedro II. Em 1887 ele regressa ao Rio Grande do Sul para se tornar Capelão da Igreja do Bonfim e professor no Seminário Episcopal de Porto Alegre. Cerca de cinco anos depois, decide viver no estado de São Paulo, passando por Santo se Campinas, onde começa a estudar e desenvolver teorias sobre os movimentos vibratórios e suas possíveis formas de transmissão.

Landell_de_Moura_-_New_York_Herald

Em 1888 ele volta ao Rio de Janeiro e pede a igreja recursos para realizar experiências de telegrafia e telefonia sem fio, mas não consegue apoio. Ele também tentou solicitar recursos junto ao poder público de São Paulo, mas também não teve nenhum apoio.

Mesmo sem auxílio financeiro, continua o projeto e realiza experimentos de transmissão sem fio em São Paulo, entre os oito quilômetros que separam a Avenida Paulista do bairro de Santana, nos anos de 1892 a 1894, em período anterior aos de radiocomunicação do cientista italiano Guglielmo Marconi, considerado o pai da transmissão de rádio em longa distância.

Marconi teria transmitido sinais em código Morse a uma distância de algumas centenas de metros, na vila de Pontecchio, somente em 1895. Entretanto, pela falta de apoio, os experimentos realizados por Landell na primeira metade da década de 1890 não foram oficialmente documentados.

Em 1899, o jornal O Estado de S. Paulo anuncia uma das experiências públicas do cientista brasileiro. Não consta, no entanto, notícia acerca do resultado daquele experimento. Registra-se também, no Jornal do Comércio, outro experimento realizado na presença de diversas autoridades, em junho de 1900, no qual o inventor consegue transmitir som.

O feito é realizado seis meses antes do obtido pelo canadense Reginald Fessenden, considerado por muitos como o primeiro a realizar a transmissão da voz humana sem o uso de fios. Landell inventou uma série de instrumentos técnicos, e obteve sua primeira patente em 1901, quando registra no Brasil o Gouraudfônio, um “aparelho destinado à transmissão fonética à distância”.

Nesse mesmo ano o padre decide tentar patentear seu invento e decide ir para os Estados Unidos em busca desse sonho. Ele fica por lá durante três anos e, na época, seus estudos foram destaque em alguns jornais norte-americanos, especialmente o The New York Herald, que dedica extensa reportagem à atuação de cientistas na área, com destaque para o pioneirismo do inventor brasileiro.

Página dupla do jornal norte-americado New York Herald onde o padre figura com destaque, 1902

Em 1904, ele consegue a patente de três inventos: o transmissor de ondas, o telefone sem fio e o telégrafo sem fio – tornando-se um dos primeiros brasileiros a obter o registro de suas invenções no exterior.

No final da década de 1900, após retornar ao Brasil, passou a se dedicar integralmente à vida religiosa. Falece em 1928, vítima de tuberculose. Atualmente, muitos pesquisadores brasileiros buscam demonstrar o pioneirismo dos experimentos realizados pelo Padre Landell, considerado o patrono dos radioamadores no Brasil.

Curiosidades:

– O padre tentou transmitir de um barco a outro em alto mar. E, para tanto, chegou a pedir ajuda da marinha brasileira. Em contato com um emissário do governo, foi questionado sobre qual distância deveria deslocar-se a embarcação. Confiante em seu trabalho, o padre respondeu que pouco importava, pois seu sistema permitiria a transmissão de mensagens até para outros planetas. Com base nesse depoimento, Moura não obteve auxílio. Foi tachado como um perturbado que queria contatar seres extraterrestres;

– O inventor chegou a  ter seus experimentos destruídos por pessoas que o taxavam como “louco”;

– Landell de Moura possui três patentes adjudicadas nos Estados Unidos e outra no Brasil. Em território americano, em 1904, patenteou o transmissor de ondas (precursor do rádio transceptor), o telefone sem fio e o telégrafo sem fio;

– Suas descobertas em radioemissão e telefonia por rádio ocorreram antes mesmo de outros inventores transmitirem sinais de telegrafia por rádio. Em 9 de março de 1901, Moura já havia patenteado a descoberta no Brasil, descrevendo a invenção como um aparelho capaz de projetar pelo espaço a voz a distâncias bem regulares;

– Outra descoberta importante ocorreu no campo da bioeletrografia. Ele criou uma máquina que fotografava um halo luminoso em torno do corpo humano, de plantas, de animais e de objetos inanimados. Também realizou experimentos científicos com a tecnologia. Apenas 32 anos depois, o soviético Semyon Kirlian apresentava o mesmo efeito, que acabou batizado com seu sobrenome. Tratava-se de uma imagem fotográfica obtida a partir da energia não visível aos olhos e que circunda todos os seres vivos.

No fim, o termo bioeletrografia acabou sendo adotado. E o padre Landell de Moura, no ano 2000, confirmado como seu inventor.

Referências:

http://acervo.estadao.com.br/noticias/personalidades,padre-landell,1035,0.htm

https://www.terra.com.br/noticias/ciencia/precursor-do-radio-landell-de-moura-morreu-quase-anonimo-ha-85-anos,68fe0b5ac768f310VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

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