O prédio itinerante que nunca saiu do lugar: o teatro de alumínio em SP

O título desse resgate histórico pode parecer engraçado e até mesmo “errado”, mas foi basicamente isso que aconteceu em São Paulo, entre as décadas de 50 e o final da década de 60 na nossa cidade. Para não alongar muito o relato, digamos que essa história começa em 13 de dezembro de 1951, quando o jornal A Noite, editado no Rio de Janeiro, publica a seguinte matéria:

O texto, como é possível ler, fala de um famoso fotógrafo, Halfeld, o famoso “fotógrafo das estrelas”, que desistiu de sua empresa e de sua ideia, um teatro de alumínio, e a vendeu para alguém. A fonte do jornal garantia que o comprador era a Prefeitura de São Paulo que, em seus planos, desenvolvia um programa de teatro popular a preços baixos.

Essa desistência, vale dizer, foi devido a um problema da instalação do teatro, fato ocorrido no ano de 1951. Halfeld gostaria de instala-lo no Passeio Público, importante parque do Rio de Janeiro, mas não obteve a autorização do poder público. Além disso, as altas despesas e a demora na entrega dos insumos para a construção do teatro acabaram fazendo com que o empresário desistisse da ideia.

Essa desistência acabou inflamando uma jovem atriz que fora convidada para participar das primeiras apresentações desse teatro. Seu nome? Nicette Bruno. Dona de uma personalidade única, ela deu entrevista para vários veículos, chegando até mesmo a falar com o presidente da república da época, Getúlio Vargas. Mesmo com toda sua perseverança, o poder público não mudou de ideia e a iniciativa não poderia acontecer naquele parque.

Mas….o então secretário de Cultura de São Paulo, Brasil Bandecchi, ofereceu a época um espaço único para esse empreendimento: a Praça das Bandeiras, onde futuramente seria instalado o Paço Municipal, sede da Câmara Municipal de São Paulo. Essa informação bate com as declarações do então prefeito da cidade, Armando de Arruda Pereira, ao jornal Correio Paulistano, em outubro de 1951. Na ocasião, o prefeito falou que:

“Seguindo nossa orientação de proporcionar aos munícipes espetáculos culturais populares, vem a Municipalidade, ultimando os preparativos para a compra de um Teatro de Alumínio, com capacidade para 1.500 pessoas, completamente desmontável, quer o palco, quer a plateia, permitindo, dessa forma, popularizar com maior facilidade as exibições recreativo-culturais”.

Meses depois, em dezembro do mesmo ano, outra declaração importante consta no mesmo jornal:

“Teatro inteiramente construído de alumínio, desmontável e com capacidade para 520 pessoas, deverá ser instalado nos próximos dias na praça das Bandeiras”. O Correio Paulistano ainda destacava que se tratava de um empreendimento inédito na América do Sul e, além da originalidade, apresentava os mais modernos requisitos técnicos, como uma ótima acústica e grande palco.

As polêmicas e a inauguração

Os jornais estavam bastante empolgados com a possibilidade da inauguração e, chegaram a noticiar que a inauguração do teatro aconteceria no dia 1º de fevereiro de 1952, com a peça “O Imperador da Bicharada”, de Silveira Lobo.

No dia 27 de janeiro o teatro ganhou as manchetes devido ao seu custo: Um milhão e meio de cruzeiros, com destaque para seu tamanho e capacidade de público:

No dia 8 de fevereiro começaram a aparecer críticas à iniciativa, como a que podemos ver abaixo:

Em março do mesmo ano, ainda se falava da inauguração do teatro, que parecia que nunca aconteceria:

No dia 27 do mesmo mês de março, um curioso recorte (abaixo). Nele se via a possibilidade de renegociação do Teatro, com a ideia de Halfeld de terminar a montagem do teatro e de explorá-lo por três meses, depois removê-lo e leva-lo novamente ao Rio. Além disso, devolveria 25% do valor de 1 milhão e 500 mil cruzeiros que recebera da prefeitura para as obras:

Já no dia 30 de abril, Halfeld, cansado das críticas e acusações que vinha recebendo, procurou o Correio Paulistano para justificar toda a demora para a implantação do teatro. Disse o fotógrafo:

 “O teatro de alumínio poderia ter sido construído de maneira mais facil de desmontagem ou mesmo portatil, se a Prefeitura tivesse apresentado um terreno plano que aceitasse a montagem direta. Mas infelizmente não foi o que sucedeu. Os engenheiros municipais mandaram construir uma base de cimento tão exagerada que mais parecia a liha Maginot, obrigando-se, dessa forma, a modificar os planos de construção do Teatro. Muitos erros houve durante sua construção, porém quase todos de responsabilidade dos engenheiros encarregados de sua fiscalização”.

E concluiu da seguinte forma:

“Entre os erros ocorridos, posso citar o da instalação dos esgotos, que de acordo com o perfil fornecido pela RAE, deveria ser ligado a rede da Rua Santo Antonio.

….

Outro ponto curioso é o de ter os engenheiros mandado construir, por conta da Prefeitura, a cortina contra fogo dois dias antes de apresentarem o seu parecer que determinou a rescisão do contrato de alienação do teatro”.

No dia seguinte, primeiro de maio, um curioso recorte acusava Halfeld de que as peças do teatro não eram importadas, como ele havia garantido tempos atrás:

Por fim, após muitas polêmicas, o teatro foi inaugurado no dia 30 de maio de 1952, conforme recorte abaixo:

Apenas a título de curiosidade, uma grande crítica foi feita no jornal do dia seguinte, de 1º de junho de 1952.  E as reclamações foram da peça, à estética do teatro e da atuação de Nicette. A parte mais pesada da crítica, talvez, seja esse trecho: De amor também se morre, original de Margareth Kennedy, em tradução de Maria Jacinta, talvez obtivesse êxito lá pelos idos de 1850. Hoje está muito longe da realidade. É fraco em todos os sentidos”.

O teatro de alumínio em novembro de 1952, em São Paulo

A vida do teatro ainda seria regada de polêmicas, como podemos ver em setembro de 52:

Infelizmente não encontrei grandes referências sobre o final do teatro, apenas descobri que ele foi demolido em 1967, sem nunca ter sido movido. Ele foi um importante dispositivo cênico de São Paulo e várias peças passaram por lá, inclusive algumas internacionais. Poucos lembram dessa história, mas sempre vale relembrar esse tipo de acontecimento.

Referências: http://livraria.imprensaoficial.com.br/media/ebooks/12.0.812.953.pdf

http://memoria.bn.br/DocReader/348970_05/10235

http://memoria.bn.br/DocReader/090972_10/8113

https://dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br/logradouro/rua-vereador-pedro-brasil-bandecchi

Um comentário em “O prédio itinerante que nunca saiu do lugar: o teatro de alumínio em SP

  • 20 de julho de 2019 em 21:27
    Permalink

    Sensacional pesquisa. Parabéns!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *