A Pré-Revolução de 32: O que levou um estado a enfrentar um país?

Para entender a história do maior conflito civil bélico da história do nosso país, é preciso voltar ainda mais no tempo e conhecer um pouco mais da nossa história e de uma famosa fase política do Brasil: o café com leite.

Durante a chamada República Velha, período compreendido entre 1889 e 1930, foi selado um acordo entre os dois estados mais ricose influentes do país, São Paulo e Minas Gerais, para que acontecesse uma “saudável” alternância de presidentes da república entre as duas partes.

Contudo, no último ano desse período, em 1930, o presidente e ex-prefeito de São Paulo, o famoso Washington Luís, resolve que é o momento de acabar com essa aliança e indica o governador de São Paulo, Júlio Prestes, para ocupar a cadeira da presidência da república.

Capa do Jornal A Gazeta - 1932
Capa do Jornal A Gazeta – 1932

Completamente revoltados com essa “traição”, as oligarquias de Minas Gerais não aceitam a vitória desse estadista e, graças um golpe de Estado articulado com Rio Grande do Sul e a Paraíba, derrubam o governo de Prestes e colocam o Getúlio Vargas no comando do país.

Entre os jovens políticos que se uniram em torno dessa articulação, destacavam-se: Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Lindolfo Collor, João Batista Luzardo, João Neves da Fontoura, Virgílio de Melo Franco, Maurício Cardoso e Francisco Campos. Além de derrubar o governo, esses líderes pretendiam reformular o sistema político vigente.

Dos militares que apoiavam esse levante contra o governo eleito, participaram nomes como Juarez Távora, João Alberto e Miguel Costa. Essas figuras gostariam de ver no país grandes reformas sociais e a centralização do poder político. Além disso, ainda havia uma velha ala militar que queria aumentar sua influência no Brasil.Esse era o caso de nomes como: Artur Bernardes, Venceslau Brás, Afrânio de Melo Franco, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e João Pessoa, entre outros.

Outro grande personagem da história brasileira, Luís Carlos Prestes, antigo líder da Coluna Prestes, resolveu seguir um caminho mais radical. Crítico ferrenho da união dos jovens políticos, ele decidiu esquecer a revolução e lançar seu Manifesto Revolucionário.  Ele se auto declarava socialista e dizia que

a mera de troca de homens no poder não atenderia às reais necessidades da população brasileira.

Longas e quase intermináveis negociações acabaram retardando as ações militares dos que queriam tirar Washington Luís do poder. Contudo, em 26 de julho de 1930, João Pessoa, presidente da Paraíba, acabou sendo assassinado o que acabou transformando-o em mártir da revolução.

Ele acabou sendo enterrado no Rio de Janeiro e todaa cerimônia de seu funeral acabou gerando uma grande comoção no país inteiro. Entre os “comovidos” estavam alguns setores do exército que, a princípio, eram contra apoiar a causa, mas com todo o ocorrido, eles acabaram aderindo ao movimento revolucionário.

Todos esses preparativos foram colocados em prática no dia 3 de outubro, sob a liderança civil de Getúlio Vargas e do tenente-coronel Góes Monteiro que ordenaram o começo das ações militares pelo país. Simultaneamente deu-se início à revolução no Rio Grande do Sul, à revolução em Minas Gerais e à revolução no Nordeste, os três pilares do movimento.

Com a tomada de várias capitais estratégicas, como Porto Alegre e Belo Horizonte, além do deslocamento de forças armadas do Rio Grande do Sul em direção a São Paulo, Washington Luís recebeu o ultimato de um grupo de oficiais-generais. Augusto Tasso Fragoso, líder desse grupo, ordenou que o presidente renunciasse, medida que foi prontamente negada.

Washington Luís, então, foi preso e começou o certo ao palácio da Guanabara, no dia 24 de outubro. A seguir, formou-se a Junta Provisória de governo, composta pelos generais Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto e o almirante Isaías de Noronha.

Graças à maior influência política dos gaúchos, a Junta decidiu transmitir o poder do país a Getúlio Vargas. Em um gesto que representou a tomada do poder, os revolucionários gaúchos, chegando ao Rio, amarraram seus cavalos no Obelisco da Avenida Rio Branco.

No dia 3 de novembro de 1930, chegava ao fim o período chamado de Primeira República e começava a Era Vargas, a frente do Governo Provisório. De posse do poder, Vargas fecha o Congresso Nacional, anula a antiga Constituição brasileira de 1891 e começa a depor diversos governadores em vários estados. Em seus lugares, Vargas coloca os chamados “interventores”, pessoas de sua confiança, para garantir o domínio de todo o Brasil.

Com essas medidas, foi a vez das elites paulistas se revoltarem contra o governo. Vale destacar aqui que, o Partido Republicano Paulista (PRP), foium dos grandes incentivadores para que começassem os trabalhos para depor o governo de Vargas.

E os motivos de insatisfação da população do Estado eram imensos. O primeiro grande ponto de conflito entre a elite paulista e o governo federal foi com relação à nomeação do tenente João Alberto Lins de Barros, ex-participante da Coluna Prestes, como novo governador de São Paulo. Para se ter uma ideia, essa atitude de Vargas conseguiu irritar até mesmo Partido Democrático de São Paulo, que apoiaram a ascensão do regime varguista..

Além disso, outro grande problema econômico começava a aparecer: a desvalorização do café brasileiro. A queda do preço desse produto, que começara em 1931, em decorrência da crise mundial de 29, forçou o governo federal a comprar as sacas de café que haviam sido produzidas.

Essa valorização forçada do café acabou resultando na proibição de novas áreas de plantio, o que gerou um desemprego e o massivo deslocamento dos trabalhadores do campo para os centros urbanos de SP. A partir de então, São Paulo começou a sofrer, como seria comum em sua história, um “inchaço” urbano marcado pela crise econômica e pelas grandes mudanças políticas.

A partir desse mesmo ano,o estado de São Paulo, principalmente, começa a exigir do governo federal a criação de uma carta que fosse capaz de reger toda a legislação do Brasil e eleições gerais para a presidência da República, atitude que Vargas adiava cada vez mais.

A Oposição Dentro de São Paulo e o MMDCA

Ao mesmo tempo em que a oposição contra Vargas se fortalecia e ganhava corpo, também crescia os chamados tenentistas, movimento que apoiava as ideias de Getulio. Segundo registros, os tenentistas se reuniam no Clube Três de Outubro e eram ferrenhos apoiadores e defensores do regime que o país vivia.

Na época, eramcomum as brigas de rua entre os estudantes do Largo São Francisco e os tenentistas, fato que geraria o estopim da revolta. No dia 23 de maio, essas forças se encontraram e se enfrentaram nas ruas de São Paulo.

Na ocasião, um grupo de jovens estudantes tentou invadir um prédio, que abrigava os jornais getulistas Correio da Tarde e a Razão,como protesto à nomeação, de Pedro de Toledo como interventor do estado. Ao mesmo tempo em que acontecia esse motim, outros manifestantes invadiam lojas de armas, começando um enorme tumulto.

Capa Diário Nacional - Pedro de Toledo
Capa Diário Nacional – Pedro de Toledo

Durante o conflito, que já havia tomado as ruas da cidade de São Paulo, acabou resultando na morte de alguns estudantes em praça pública, que ficaram “famosos” como MMDCA (sigla dos cinco jovens mortos: Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo e Alvarenga, nome que seria acrescido anos depois). Esse acontecimento foi o estopim para que, no dia 9 de julho de 1932, começasse, de fato, a Revolução Constitucionalista. Na ocasião, o conflito armado tomou seus primeiros passos sob a liderança dos generais Euclides de Figueiredo, Isidoro Dias Lopes e Bertoldo Klinger.

Capa do Jornal A Gazeta - General Isidoro Dias Lopes
Capa do Jornal A Gazeta – General Isidoro Dias Lopes

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