A segunda carta de Anchieta e as dificuldades em Piratininga

Continuando a série sobre as cartas de Anchieta, relatando a vida em São Paulo no começo de nossa história, ou seja, durante o século XVI, vamos à carta quadrimestral, dessa vez datada de 20 de março de 1555. Nessa ocasião, Anchieta faz um relato sobre sua vida na pequena aldeia de Piratininga aos seus “irmãos” de Coimbra.

E o começo da carta é o seguinte: “Até agora estive sempre em Piratininga, que é a primeira aldeia de índios, que está pelo sertão dez léguas do mar, como em outra vos escrevi, na qual sarei, porque a terra é muito boa, e porém, não tinha xarope e nem purgas, nem os mimos da enfermaria”.

E o relato continua falando dos procedimentos “médicos” da época e das dificuldades que o jesuíta encontrava durante sua vivência na São Paulo antiga:

“Muitas vezes e quase o mais continuado, era o nosso comer folhas mostardas cozidas e outros legumes da terra, e outros manjares que lá não podeis imaginar. Junto com ensinar gramática em três classes diferentes, pela manhã até a noite. E às vezes estamos dormindo, me iam despertar para me perguntarem, no qual tudo parece que sarava. E assim é, porque, desde que fiz conta que não era enfermo, logo comecei a ser são…Neste tempo que estive em Piratininga, que foi mais de um ano, servi de alveitar algum tempo, isto é, de médico daqueles índios. Agora estou aqui em S. Vicente, que é no porto, onde vim com o P. Nóbrega para despachar estas cartas que lá vão”.

E ainda ele reservou um espaço para uma deliciosa curiosidade (e necessidade) da São Paulo antiga: “Além disso aprendi cá um ofício, que me ensinou a necessidade, que é fazer alpargatas”.

Uma segunda carta

Pelo que o livro nos conta, ainda há mais uma carta de Anchieta que foi despachada também em março, mas essa tinha como destino a mesa de Santo Ignácio de Loyola, onde são relatados avanços da catequese e da expansão da vila, além de outras minúcias, como a preocupação com o alcoolismo dos catequisados e uma suposta “fome por carne humana”.

“Continuamos ainda alguns irmãos nesta nossa Piratininga (que principia a ser povo de Deus), onde o Senhor se digna a colher algum fruto entre espinhos e cardos, trabalhando nós por sermos fiéis reconhecidos e quando vier o pai de família e sobre a seara abundante de muitas nações, para lhe darmos in tempore tritici mensuram. Estes nossos catecúmenos de que nos ocupamos, parecem apartar-se um pouco dos seus antigos costumes, e já raras vezes se ouvem os gritos desentoados que costumam fazer nas bebedeiras.

Este é o seu maior mal, donde lhes vêm todos os outros. De fato, quando estão mais bêbados, renova-se a memória dos males passados, e começando a vangloriar-se deles, logo ardem no desejo de matar inimigos e na fome de carne humana. Mas agora, como diminui um pouco a paixão desenfreada das bebidas, diminuem também necessariamente as outras nefandas ignomínias; e alguns são-nos tão obedientes que não se atrevem a beber sem nossa licença, e só com grande moderação se a compararmos com a antiga loucura.

….

Outra esperança de maior fruto nos alenta ainda, porque inumeráveis nações, espalhadas por vastíssimos territórios, têm fome e sede da palavra d Deus. Satisfarão estas o nosso desejo e gosto, e sobretudo aqueles que estão mais vizinhos de nós, chamado carijós, os quais há muito nos esperam com ânsia”.

A segunda parte das cartas de Anchieta acabam por aqui. Em breve a terceira carta!

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