O Protesto Político Paulistano – O Verador Cacareco

A cidade de São Paulo já foi palco de grandes conquistas, mas também de protestos únicos contra a política municipal. Um desses protestos mais famosos foi o rinoceronte Cacareco, vereador mais votado da cidade nas eleições de 1959 com quase 100 mil votos. Criado na cidade do Rio de Janeiro, o rinoceronte foi emprestado para a inauguração do Zoológico de São Paulo, em 1958. Curiosamente, apesar de seu nome ser Cacareco, o animal era uma fêmea.

Ao contrário dos candidatos da época, sua credibilidade e popularidade só aumentavam junto aos eleitores. Foi então que o jornalista Itaboraí Martins, em tom de brincadeira, decidiu lançar Cacareco na disputa pelo cargo de vereador, em protesto à postura caricata dos candidatos da época.

A brincadeira caiu nas graças da população e Cacareco recebeu mais votos do que qualquer outro concorrente, conquistando eleitores até em outros municípios paulistas. O cômico e inesperado resultado das urnas acabou sendo imortalizado como um dos mais célebres protestos políticos do país.

cacareco

O animal encarnou a frustração dos paulistanos com os políticos nas eleições para a Câmara Municipal. Foi um recado claro dos paulistanos: ela teve mais votos do que os 450 candidatos que concorriam a 45 cadeiras.  Na maioria das cédulas o paulistano escreveu “Para vereador – Cacareco”, mas em outras a criatividade transbordou, “Cansados de teleco-teco, vamos votar em Cacareco”, ou “Queremos uma Câmara mais anima… da”. Apesar do sucesso, lançar um animal como protesto não foi original. Em Jaboatão (PE), o “bode cheiroso” já havia sido lançado como candidato a vereador.

Além do primeiro animal ‘eleito’, Cacareco, foi o primeiro rinoceronte nascido no Brasil, em 1954. Curiosamente, foi o próprio Jânio Quadros quem solicitou o animal ao prefeito do Rio, Negrão de Lima. “Asseguro a v. Exa, que este governo dispensará a “Cacareco” todas as atenções e cuidados convenientes”, escreveu Jânio no ofício enviado ao prefeito e  publicado pelo Estado em 31 de janeiro de 1958. Em 5 de fevereiro chega a confirmação do empréstimo, o animal foi cedido durante alguns meses para o novo zoo da capital paulista.

Apesar de seu enorme apelo popular, o “subversivo” rinoceronte foi devolvido às pressas para o Rio de Janeiro, faltando apenas três dias para as eleições. Mas o desejo dos paulistanos era que ele ficasse para sempre na cidade e, a campanha “Cacareco é nosso”, havia conquistado a opinião pública. Alguns vereadores chegaram a reclamar de ligações de um comitê pró candidatura do rinoceronte.

Outra curiosidade que cerca a história de Cacareco é que Jânio eleito deputado federal por outro estado, mais especificamente pelo Paraná, com 78.810 votos, quase 20.000 a menos do que sua criatura.

Desiludida com a vida pública,  a  estimada Cacareco morreu prematuramente aos 10 anos de idade (os rinocerontes vivem, normalmente,  45 anos), somente alguns anos depois do pleito que a eternizou na história política do Brasil. A Cacareco morreu, mas não foi esquecida. Em 1984, seus restos mortais voltaram para São Paulo e estão exibidos até hoje no Museu de Anatomia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária.

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