A Travessia Impossível: A História de João Ribeiro de Barros e do Jahú

A aviação brasileira, só por Santos Dumont, já faz parte da história mundial dessa área. Apesar disso, outros heróis nacionais também contribuíram para que, cada vez mais, os brasileiros sejam lembrados como corajosos desbravadores dos céus.

O personagem da nossa história é João Ribeiro de Barros, nascido em 1900, na cidade de Jaú, no interior do Estado de São Paulo. Existem poucos registros de sua infância e crescimento, mas sabe-se que era filho de Sebastião Ribeiro de Barros e de Margarida Ribeiro de Barros. Ele também possuía seis irmãos e fez seus estudos iniciais no Ateneu Jauense, que fora fundado por seu avô, o capitão José Ribeiro de Camargo Barros e finalizou seus estudos secundários no consagrado Instituto de Ciências e Letras de São Paulo.

João Ribeiro de Barros

Para sua formação superior, Ribeiro de Barros ingressou no curso de Direito da Faculdade do Largo de São Francisco em 1917, mas ele acabaria abandonando a graduação dois anos depois para se dedicar ao estudo da mecânica de aviões nos Estados Unidos. Ele conseguiu obter sua licença internacional, também chamada de brevet em 1923, na França. Aperfeiçoou seus conhecimentos como navegador e piloto nos EUA e de acrobacias aéreas na Alemanha e começou a se preparar para uma travessia aérea transatlântica inédita.

Os Preparativos Para a Viagem

Visando atravessar o oceano voando e retornar ao Brasil, Ribeiro de Barros começou a planejar a odisseia. Mais do que realizar a aventura, o comandante acreditava que se os aviões não pudessem ter sua própria autonomia, sem ajuda de suporte de navios, eles seriam apenas parasitas da navegação marinha.

Retornando aos seus preparativos, em um primeiro momento de planejamento, ele recorreu ao governo brasileiro para comprar um avião e, assim, conseguir viabilizar a aventura. O pedido foi negado e ele se viu obrigado a conseguir o dinheiro de outra maneira: vendendo sua parte da herança aos seus irmãos.

Jahú

Com um bom dinheiro em mãos, ele foi para a Itália e comprou, por 200 contos (680 mil libras) uma aeronave usada, um Savóia Marchetti SM 55 (seu primeiro nome foi Alcyone), que pertenceu ao Conde Casablanca, que tentara voar da Itália ao Brasil, mas acabou desistindo da empreitada logo no começo.

Visando melhorar o aparelho, o comandante contratou o mecânico Vasco Cinquini e fez diversas reformas, adaptações e mudanças no hidroavião para ganhar velocidade e autonomia. Terminado os acertos, o aparelho foi rebatizado para Jahú e visando completar a equipe, Barros publica um anúncio no “O Estado de São Paulo” oferecendo a oportunidade a um navegador experiente e brasileiro para participar da epopeia. Na expectativa por voluntários, ele viaja aos Estados Unidos e encontra com seu mestre e amigo Gago Coutinho, com quem estuda detalhadamente o assunto e discute rotas de voo e percursos.

Vale ressaltar que o comandante e o mecânico fizeram alterações brutais no hidroavião: mudança de radiadores, alterações nas bombas de água e de gasolina; modificações em tubulações, cabos e botes de canoagem e, por último a remoção do sistema de rádio. Cada quilo a menos era um quilo a mais de combustível que, obviamente, seria imprescindível para superar os 9.000 quilômetros que separavam os dois continentes.

A Tentativa de Sabotagem E  As Dificuldades Iniciais

Com as alterações prontas e o hidroavião preparado para a viagem, um fator externo fez com que Ribeiro de Barros precisasse voltar à Itália: o medo da sabotagem. As mudanças ficaram tão boas e o desempenho do Savóia Marchetti SM 55 foi tão melhorado que o governo italiano resolveu preparar outra aeronave idêntica à do brasileiro. Esse novo avião seria entregue ao consagrado piloto De Pinedo que, com recursos italianos, executaria uma viagem transoceânica com caráter oficial.

Para que isso fosse possível, entretanto, era preciso retardar o quanto fosse possível a saída do piloto brasileiro, afinal, o que estava em jogo era o prestígio de toda a aviação europeia. Uma carta enviada pelo piloto oficial do governo italiano, Passaleva, afirmava, literalmente, que: “Esse moço (Ribeiro de Barros) dará muitas glórias à sua Pátria”. Com todo esse clima de “sabotagem” no ar, começavam as dificuldades para Ribeiro de Barros e seu mecânico que, em muitas noites, dormiram no galpão do navio trabalhando desesperadamente para diminuir a data da partida e sair o quanto antes daquele território hostil.

Ao mesmo tempo em que realizava as modificações finais, Ribeiro de Barros teve a feliz notícia que o navegador Newton Braga e o seu segundo piloto, Cunha, já estavam na Europa e prontos para partir. Sem mais tempo a perder, a data para a expedição já estava determinada: 18 de outubro de 1926.

Hidroavião Jahú e seus corajosos tripulantes.
Hidroavião Jahú e seus corajosos tripulantes.

Dias antes o Comandante Ribeiro de Barros recebeu a visitada do jornalista italiano Décio Buffon e, em sua épica entrevista, o comandante afirma que: “A iniciativa do reide (viagem), seu custeio e sua organização a mim me pertencem, exclusivamente. Chamem-me na empresa esportiva, se quiserem; mas, além da satisfação pessoal, pretendo tentar a demonstração de que um voo através do oceano é possível, sem que o veículo conte com outros elementos além dos próprios. Portanto, nenhum cruzeiro naval no itinerário, nem auxílio a invocar por meio de radiotelegrafia. Para entrar no terreno da realizações práticas, em grandes travessias, a aviação deve contar somente com os próprios recursos…”

A aventura, que até então estava sendo mantida sob sigilo absoluto, passou ao domínio público italiano e, consequentemente, mundial. A partir de então a imprensa internacional voltou seus olhos ao corajoso piloto brasileiro que ousava desafiar a tecnologia e os pilotos de toda a poderosa Europa.

O Começo da Viagem

No dia 18 de outubro de 1926 o hidrovião Jahú decola de Gênova, sob grande apelo popular, mas, como se descobriria mais tarde, sabotado. O avião que partiu da Itália tinha sabão caseiro, terra e água nos seus reservatórios de combustível e um pedaço de bronze, que hoje se encontra no Museu da Aeronáutica, no fundo do carter do motor traseiro. Uma tentativa chula de estragar a viagem brasileira.

Com tudo isso atrapalhando a aventura, Ribeiro de Barros foi obrigado a realizar um pouso forçado em Alicante, onde as autoridades espanholas acabaram prendendo-o sob a alegação de desconhecer as intenções do pouso.

Com a interferência da Embaixada Brasileira em Madri, os  aviadores foram liberados e o avião sofreu reparos para poder prosseguir com sua longa viagem ao Brasil. Duas horas depois de partir da Espanha, o avião foi obrigado a parar em Gibraltar para trocar o combustível que fora impregnado com sabão. Resolvido esse problema, nova decolagem e, para variar, novos problemas: a bomba de gasolina parara de funcionar. Com ordens de Ribeiro de Barros, o mecânico usa a bomba manual, instalada na Itália, para chegar ao Porto Praia, no arquipélago de Cabo Verde, no meio do oceano.

Em Porto Praia, após todas as dificuldades, João Ribeiro se vê obrigado a desmontar os motores do aparelho sem qualquer ajuda. É preciso ressaltar que o percurso seguinte, de 2.400 quilômetros, não permitia escalas. Começava um trabalho penoso para o comandante e o mecânico que, durante meses, tiveram que dormir sob uma barraca de lona à beira da praia trabalhando na recuperação do aparelho. Para piorar, o jovem piloto foi acometido por quatro crises de malária e era desmoralizado por um jornal carioca que duvidava de seu sucesso.

Nesse momento de dúvida sobre o sucesso da empreitada, o amor materno fez toda a diferença para o corajoso comandante. Pela estação telegráfica de Porto Praia, Ribeiro de Barros recebe uma mensagem de sua mãe, Margarina Ribeiro de Barros. No telegrama, o seguinte texto:

“Aviador Barros. Aplaudimos tua atitude. Não desmontes aparelho. Providenciaremos continuação do reide, custe o que custar. Paralisação do reide será fracasso. Asas avião representam Bandeira Brasileira…”

Com suas forças renovadas, Ribeiro decide continuar a empreitada e responde à sua mãe com uma corajosa mensagem:

“A viagem de qualquer maneira será feita. Haveremos de aportar ao Brasil; e se isso não se der, estaremos assim mesmo pagos, completamente pagos porque o JAHÚ terá a mais digna sepultura, o mesmo oceano que haverá de banhar eternamente essa terra, tão grande nas suas riquezas, tão grande na sua História.”

Enfim, chegamos!

Na manhã do dia 28 de abril de 1927, às quatro horas da manhã, mil cavalos de força explodem na noite da pequena ilha e o avião decola sob o comando de um furioso comandante que queria acabar com essa longa viagem. Voando à 190 quilômetros por hora (recorde que seria mantido por 10 anos), passando em meio a tempestades e fortes ventos oceânicos, o Jahú resistiu por 12 horas consecutivas no caminho que o levaria ao Cruzeiro do Sul.

Chegando à costa de Fernando de Noronha, uma de suas hélices se quebra e, mesmo assim, o lindo avião vermelho, sob o comando de um paulista, desce em águas brasileiras. A recepção, como era de se esperar, foi de um herói.

Mais de cem medalhas e presentes foram ofertados ao comandante tudo em honra à sua viagem destemida que entraria para a história da aviação brasileira. O fim da jornada seria a represa de Santo Amaro, onde o aviador e seus tripulantes finalmente puderam pousar e começar o merecido descanso. Um dos jornais da época fala bem do sentimento daquela conquista:

Do “Rio Sportivo”, edição de 06/07/1927:

“…não sabemos como descrever a alegria da nossa mocidade em sua consagração aos bandeirantes do espaço. Os grupos sucediam-se em frêmitos de júbilo incontido, deixando transparecer aos gritos de Jahu! Jahu! Jahu! A emoção que ia nas almas dos seus componentes.”

“Aqui eram bandos de rapazes do nosso comércio, precedidos de estandartes significativos, que, em saudações a Ribeiro de Barros, Newton Braga, Negrão, Mendonça e Cinquini, davam expansão ao seu entusiasmo. Ali eram levas de acadêmicos e colegiais que no mesmo diapasão exteriorizavam os seus impulsos patrióticos pela consecução do brilhante feito.”

“Antes de ingressarem na nossa principal artéria, em direção a praia do Flamengo, aonde deveria amerissar o JAHÚ, esses percorreram o centro da cidade, fazendo fechar os raros estabelecimentos que se conservavam abertos….”

“…Às 13 horas, a nossa principal artéria tinha o seu curso quase intransitável, dada a mole humana que nela expandia-se de permeio com a extensa fila de automóveis, que formavam um corso infindável”.

“Os foguetes e morteiros espoucavam no espaço…Os prédios da Avenida Rio Branco tinham as suas sacadas abarrotadas de gente…”

“Eram precisamente 15 horas…A multidão fremiu de entusiasmo e todas as atenções voltaram-se para a entrada de nossa baía, à cata da silhueta do JAHÚ. Já a esse tempo as sirenes estredulavam, os foguetes e morteiros baralhavam, enquanto que os sinos das igrejas repicam festivamente…”

“Eis que um ponto quase imperceptível se divisaa, assomando às colinas que cercam a nossa barra em sua margem esquerda, guardada por dois aviões navais, em posição de honrarias. Era, não havia dúvida, o JAHÚ… Uma vez avistado o JAHÚ, o movimento no Arsenal de Marinha assumiu proporções nunca vistas, preparando-se a recepção aos bravos aviadores… Os pilotos do JAHÚ foram ali recebidos sob aclamações estridentes, sendo carregados em triunfo nos braços do povo…”

“Enquanto das sacadas eram atiradas pétalas de flores sobre as cabeças dos heróis do ar, os gritos e palmas ecoavam de um modo ensurdecedor. As bandas de música executaram a marcha “Salve, Jahu”, que era entrecortada de aplausos frenéticos da multidão”.

O feito realizado pela tripulação do Jahú ainda rendeu várias homenagens internacionais, como: a Ordem do Tosão de Ouro, de Portugal; de São Francisco e São Lourenço, da Itália; Cavalheiro da Legião da Honra, da França e dezenas de outras, além da mais alta honraria da Coroa da Bélgica.

O hidroavião, na represa de Santo Amaro, sendo inspecionado no dia seguinte ao histórico.
O hidroavião, na represa de Santo Amaro, sendo inspecionado no dia seguinte ao histórico.

A consagrada Ligue Internationale des Aviateurs, com sede em Paris, deu ao comandante João Ribeiro de Barros, em 1937, sua honraria máxima, o troféu “Harmon”. Na América, seu feito foi pioneiro, sendo seguido depois por Charles Lindbergh que, 23 dias após a chegada do Jahú, fez um voo solitário pelo Atlântico. Uma outra homenagem que merece destaque é uma coroa de louros, que está no Museu da Aeronáutica de São Paulo, com as seguintes palavras: “Após Ruy Barbosa – Ribeiro de Barros foi o segundo brasileiro a cingir uma coroa de louros. Escadarias da Faculdade de Direito de Recife. 1927″.

O Que Foi Feito do Jahú?

O lendário avião vermelho, por muito pouco, não virou pó. Durante muitos anos ele ficou exposto no hangar da Polícia Militar no aeroporto Campo de Marte, em São Paulo, até que, em 2003, o Jahú e a Helipark se encontraram.

A empresa, que já sabia que o “pássaro de fogo” havia passado por um restauro mal sucedido, decidiu investir para deixar o histórico hidroavião em suas condições originais. O Jahú faz parte do patrimônio público e, como o tal, é tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) e tem como seu fiel detentor a FSD (Fundação Santos Dumont). Para transformar esse objetivo em realidade, foi necessário buscar várias autorizações para começar o processo.

Firmado o acordo entre o Ministério da Aeronáutica, FSD e Condephaat, a restauração começou. Era outubro de 2004 e os pensamentos dos profissionais estavam em como fazer para a parte técnica do avião ser revivida. O caminho envolveu pesquisas para encontrar materiais originais e, em alguns casos, até mesmo refazer alguns desses componentes.

A cor foi redescoberta, peças que foram erroneamente instaladas foram removidas, equipamentos foram importados para fazer o restauro. Em setembro de 2005 a Itália enviou ao Brasil um avião para transporte do estabilizador horizontal, o profundor e os dois montantes do estabilizador traseiro, para avaliação e recuperação pelos técnicos italianos. No entanto, até o término do restauro completo do Jahú pelo Helipark, estas peças ainda não haviam retornado, e a empresa produziu réplicas idênticas para exposição.

Vale dizer que, assim como a viagem de João Ribeiro de Barros, o restauro do Jahú não teve qualquer apoio do poder público. Após 3 anos e meio e mais de 12 mil horas de trabalho, o Helipark concluiu sua missão e entregou o Jahú de volta à população. Atualmente, o Jahú pode ser visitado no Museu Asas de Um Sonho, em São Carlos (SP).

O trabalho final rendeu várias homenagens à empresa. O presidente da Helipark foi outorgado com a Medalha Mérito Santos-Dumont, pelo Ministério da Defesa, e também recebeu a comenda da Legião do Mérito da Academia Brasileira de Engenharia Militar, no grau de “Alta Distinção”. A Câmara Municipal de Jaú outorgou a medalha João Ribeiro de Barros ao Presidente, a Vice Presidente ao Diretor Técnico da empresa. O time que trabalhou diretamente no restauro também recebeu, do Ministério da Defesa, a Medalha Bartolomeu de Gusmão.

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5 comentários em “A Travessia Impossível: A História de João Ribeiro de Barros e do Jahú

  • 8 de outubro de 2015 em 20:36
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    boa noite gostei muinto da matéria sobre esse avião eu vi ele quando estava esposto dentro da oca o antigo museu da aeronautica. bem judiado e mau conservado .parabens a equipe que trabalhou na restauraçaõ dess lindo avião chamado jhau . boa noite a todos

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    • 16 de maio de 2017 em 19:27
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      Quando criança, década de 40, tive a oportunidade de ver o Jahú, numa área junto ao Museu do Ipiranga.

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  • 9 de outubro de 2015 em 18:00
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    Senti muita tristeza quando vi o Jahu tão abandonadinho, lá no Museu da Aeronáutica, na Oca, São Paulo. Disseram que estava cheio de Cupim. O Povo Brasileiro agradece à Empresa Helipark a sensibilidade e interesse em restaurar e proteger tão grande patrimônio cultural e demonstra orgulho pelos feitos de Nossa Gente., Obrigada Helipark!

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  • 21 de dezembro de 2015 em 16:19
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    Pena que essa epopeia nem seja mencionada nos livros escolares.

    Não fossem iniciativas como a do SAOPAULOINFOCO, João Ribeiro de Barros seria apenas nome de rua em meia dúzia de cidades…

    Saudações Eternas, “Bandeirante do Espaço”

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  • 22 de junho de 2017 em 22:56
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    Emocionante e surpreendente história.

    O Brasil não conhece o Jahu nem Ribeiro de Barros ou o fato de que foi o primeiro brasileiro a realizar a travessia do atlântico. E não conhece porque era um paulista. Se fosse carioca, com certeza a Globo renderia homenagens pelos 90 anos do feito histórico.

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