Minha SP # 09 – Por Heródoto Barbeiro – Cambuci Ameaçado

Por Heródoto Barbeiro

Cambuci Ameaçado

O Cambuci está ameaçado. De qual Cambuci estou falando? Se for do bairro pode ser que a especulação imobiliária, a falta de cultura e sensibilidade dos governantes da cidade tenham alguma coisa com isso. Afinal, monumentos históricos, prédios antigos, e ruas consagradas dão lugar a uma selvageria urbana. Não sobra pedra sobre pedra. Não se trata de ser apegado ao passado e impedir que o progresso se instale. Estou falando da descaracterização que atinge vários bairros da cidade, entre eles o Cambuci.

Afinal, não é possível mais ir para a escola estadual Roldão Lopes de Barros de bonde que passava pela Rua da Independência. Nem o prédio da escola existe mais. O largo tomou uma feição de coisa nenhuma. Enfim, o que acontece no Cambuci não é um fato isolado. Só estou me referindo a ele porque estudei lá, peguei o bonde e comi pastel na pastelaria ao lado do ponto. Quando não tinha dinheiro ia a pé. Ia pela Rua Ana Nery até a avenida do Estado e atravessava o Tamanduateí por uma pinguela de concreto que sustentava uma adutora que abastecia o bairro.

O rio não tinha sido “enterrado” como hoje, nem se transformado em uma imensa tubulação de esgoto. Se você olhar no Google vai ver o “iluminado “ que mandou construir um tampão no rio. Deve ser um caso inédito no mundo.

Pouco resta da cultura do bairro, da história e das lembranças. Afinal quando o vigário da Igreja da Boa Morte, no topo do Carmo, em 1822, avistou a comitiva do príncipe regente D. Pedro, começou a comemoração da independência do Brasil. O jovem príncipe estava no Cambuci em direção a minúscula cidade de São Paulo.

Há um outro Cambuci.

Uma fruta verdinha como o verdão, ( perdoe-me meu Coringão) com formato de um pequeno disco voador, nativa da Mata Atlântica, que deu nome ao bairro. Tinha Cambuci a dar com pau no Cambuci. Sumiu tudo. Está ameaçada de extinção como a palmeira juçara, aquele palmito servido nas churrascarias e pizzarias do bairro.

Ameaçados também um sem número de animais da mesma mata que não resiste a invasão dos mananciais que abastecem o Cambuci e toda a cidade de água. Há alguns abnegados que criaram a Rota do Cambuci, que passa pelo Cambuci e oferece a oportunidade de experimentar comidas da culinária antiga feitas com o Cambuci.

Eu mesmo prefiro um Cambuci deitadinho, há pelo menos um mês ,dentro de uma garrafa de cachaça da boa escolhida pelo Zé Ferro. A velha pinga com Cambuci, uma iguaria saboreada no ABC antes dos sindicalistas se tornarem políticos de sucesso. Trocaram o Cambuci pelo “escotche”.

Portanto, estou falando dos dois: o bairro e a fruta. Ambos têm espaço no meu coração.

ET: Tenho uns pés plantados na Reserva Mahayana.

Heródoto Barbeiro é jornalista, âncora da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Ex-âncora do Roda Viva, da TV Cultura e do Jornal da CBN.

3 comentários em “Minha SP # 09 – Por Heródoto Barbeiro – Cambuci Ameaçado

  • 13 de outubro de 2017 em 19:54
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    Estudei no Instituto Nobel de Tecnologia na rua Muniz de Souza em ’69, 70… dependendo do horário várias vezes perdia o onibus e fazia esse caminho à pé ate o centro.

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  • 19 de abril de 2019 em 23:35
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    Querido Herodoto, eu tambem participei dessas aventuras, jogando futebol pelo Alexandre de Gusmão nos Jogos da Primavera em 64 ou 65 quando massacramos o Roldão sem piedade. Very sorry for that. Aquela pastelaria do Largo! Porque vc mencionou,hein? So pra me chatear? Tinhamos uma amiguinha no Alexandre que era abonada e toda semana pegavamos o bonde na Bom Pastor e iamos pro Largo e ela pagava tudo e passavamos horas no pedaço pois estavamos cabulando. No final do dia depois de uns amassos atras do museu do Ipiranga, bonde outra vez. Ela voltando pra Cisplatina e eu seguindo ate a Praca João Mendes pois morava na rua Assembleia. Aquele pastel do Largo do Cambuci era delicioso com caldo de cana. Um abraço

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    • 10 de junho de 2019 em 19:33
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      Gostei da parte sobre os amassos atras do museu do Ipiranga, eu tinha uma namorada e o namoro era escondido….nossos amassos também era atras do museu do Ipiranga, tinha um pequeno bosque la….não sei hoje como está. Bons tempos…e mta saudades.

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