A Mulher Que Chocou O Conservadorismo – Veridiana da Silva Prado

Uma das mulheres mais importantes da história da cidade de São Paulo foi Veridiana Valéria da Silva Prado. Dona Veridiana, como viria a ser conhecida futuramente, era filha de Antônio Prado e mãe de um filho com o mesmo nome que, anos depois, seria o primeiro prefeito da nossa cidade.

Nascida entre as Ruas Direita e São Bento, em uma residência que já havia hospedado Dom Pedro na época em que o regente proclamou a Independência do país, Veridiana era filha de um grande empresário que, mais tarde, ganharia o título de Barão de Iguape. Engana-se, entretanto, quem imagina que a riqueza de seu pai vinha do café. Seu ramo de atuação era outro: as tropas de mulas e o comércio em geral.

Como era comum na época, Veridiana foi obrigada a se casar muito cedo, com 13 anos, com seu tio, Martinho Prado, que era 14 anos mais velho que ela. A ideia das famílias ricas da época, obrigando esse tipo de relacionamento, era não dispersar os bens conquistados em outras gerações.

Durante os dez primeiros anos de seu casamento, Veridiana viveu na famosa fazenda Campo Alto, em Mogi Mirim, que pertencia ao seu marido. Outro ponto interessante de sua vida foi que seu primeiro filho nasceu quando ela tinha 15 anos. Aos 22, ela já havia dado a luz a cinco filhos e aos 35, mais três nasceriam. Contudo, apenas alguns deles sobreviveram à dura vida da época.

Como dito no começo do texto, Veridiana e Martinho tiveram filhos que se destacaram no cenário paulistano. O mais velho, Antônio, se tornou prefeito de São Paulo. O segundo, Martinho, apelidado de “Martinico”, como o pai, se tornou um líder republicano de muito prestígio. Os dois mais novos, Caio e Eduardo, migraram para a intelectualidade com grande influência política.

Com isso, a família Prado se tornou a mais ilustre e respeitada do seu tempo na cidade de São Paulo. Os cafezais, fruto do grande trabalho de Martinho “pai”, iam de Mogi Mirim até a cidade de Ribeirão Preto. Veridiana, por sua vez, guiava a família com mão de ferro e muita inteligência, orientando os filhos, arranjando casamentos e opinando firmemente nos negócios familiares.

Uma Mulher A Frente do Seu Tempo

Dona Veridiana carregou, durante toda sua vida, vários aspectos muito diferentes de uma “mulher” da época. A primeira grande “polêmica” de sua vida foi se separar do seu marido, graças a uma briga familiar envolvendo sua filha Ana, e, aos 53 anos, marcar uma ativa presença na sociedade paulistana.

Além disso, ela “chocou” a conservadora sociedade da época ao comprar um terreno em seu nome, que hoje é a esquina da Avenida Higienópolis com a Rua Dona Veridiana. Ali, ela construiu uma grande mansão de estilo francês e, devido ao seu grande interesse pela cultura, não era incomum que ela reunisse artistas e intelectuais em seus grandes salões.

Chácara de Veridiana da Silva Prado em 1902.
Chácara de Veridiana da Silva Prado em 1902.

O palacete, que foi concebido em estilo renascentista francês, teve projeto e materiais vindos da Europa. Sua construção ficou a cargo de Luis Liberal Pinto e, no ano de 1885, Dona Veridiana finalmente se mudaria para a nova casa.

Até mesmo a Princesa Isabel visitou a baronesa, chegando a dizer que:

“A propriedade de D. Veridiana, lindíssima; casa à francesa, exterior e interior muitíssimo bonitos, de muito bom gosto.(…) Os jardins tem gramados dignos da Inglaterra, a casa domina tudo, há um lagozinho (sic), plantações de rosas e cravos, lindos. Vim de lá encantada”.

Falando especificamente de sua influência na intelectualidade, D. Veridiana abria sua residência para grandes reuniões intelectuais. Cientistas como Orville Derby e Loefgreen, os médicos Domingos José Nogueira Jaguaribe, Luis Pereira Barreto, Cesário Motta Junior e Diogo de Faria, além de Capistrano de Abreu, Ramalho Ortigão, Graça Aranha, Joaquim Nabuco tiveram o prazer de participar de reuniões por lá.

Além disso, em 1887, quando Dom Pedro II fez sua última visita à cidade de São Paulo, Dona Veridiana o recebeu no palacete. Para a recepção do Imperador, ela dispôs seus netos em duas filas para jogar pétalas de rosas sobre o soberano. Contudo, um de seus pequenos juntou um bolo de pétalas e atingiu o imperador em cheio no rosto. Vale dizer que esse neto era um dos filhos de Martinico Prado, importante e ativista jornalista republicano.

Sempre muito discreta, Dona Veridiana se vestia com roupas escuras e odiava o tratamento de “Madame”, tão comum para a sociedade da época. Ela inovou, mais uma vez, ao prover todas as mulheres da família em seu testamento.

A condição, era ainda mais chocante: elas teriam que usar o dinheiro em proveito próprio, sem deixá-lo na mão dos seus maridos. Isso, obviamente, o torna uma das primeiras feministas da história paulistana. Como curiosidade, vale dizer que seu casarão é tido como um dos berços da Semana de Arte Moderna de 22.

Ela acabaria enterrada no Cemitério da Consolação e, a rua que liga o Largo Santa Cecília à Avenida Higienópolis, recebeu seu nome, uma justa homenagem a essa grande mulher paulistana.

4 comentários em “A Mulher Que Chocou O Conservadorismo – Veridiana da Silva Prado

  • 26 de outubro de 2017 em 18:33
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    DONA VERIDIANA CONSTRUIU UMA BELA CASA, FEZ VARIAS FESTAS ONDE REUNIA A ALTA SOCIEDADE PAULISTANA , TEVE UMA VIDA FAUSTA , USUFRUIU DE UMA GRANDE FORTUNA, ENFIM VIVER ASSIM É MUITO BOM E AGRADA O EGO.
    QUANTAS FESTAS,QUANTOS JANTARES, QUANTAS CRIADAGENS PARA PODER SERVIR E RECEBER CONVIDADOS , MAS LHE PERGUNTO PORQUE ADJETIVA-LA COMO UMA GRANDE MULHER? O QUE ELA FEZ PARA O SOCIAL, ALGUM HOSPITAL PÚBICO, ALGUMA ESCOLA GRATUITA, ALGUMA CRECHE ? TALVEZ EU NÃO SAIBA? GOSTARIA DE SABER SE ELA FEZ ALGUMA COISA PARA A SOCIEDADE PARA PODÊ-LA CHAMAR DE UMA GRANDE MULHER.

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    • 26 de outubro de 2017 em 23:55
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      Enfrentou o conservadorismo da época e foi uma grande benemérita das artes e intelectualidade. Por qual razão não chamá-la de grande mulher?

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    • 3 de janeiro de 2019 em 13:20
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      Ela era apenas filha de Barões e na época as pessoas gostavam muito de mimar e paparicar os ricos, intangíveis nas suas fortunas…Como outras mulheres da época obrigada a casar com seu tio que era bem mais velho creio que com 54 na época, que era um ato normal na época, já que não existia rapazes a sua altura ($) pra casar e juntar bens. E moças nessa época as ricas não tinham escolhas em lugar nenhum do mundo a escolher um namorado quem dirá marido, eram feitos grandes negócios com filhas e filhos, ninguém teria vontade própria era tudo permeado pelas mães, elas escolhiam os maridos das suas filhas e ou filhos, pois frequentavam os locais sociais de luxo e sabiam entre os chás sobre tudo que acontecia na época.Os bailes sociais era uma forma de apresentar seus filhos, a lista de convidados eram rígidas, somente para o clube dos Barões.

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  • 21 de outubro de 2018 em 21:47
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    Quando (ano) faleceu Dona Veridiana???

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