Um Cientista Paulista – A Trajetória de Abrahão de Moraes

Todo paulistano já passou pelo menos uma vez pela Avenida Abrahão de Moraes, uma importante via da zona sul da nossa cidade.

Mas são raros os registros que resgatam a memória desse importante personagem da nossa história.

Professor Abrahão de Moraes
Professor Abrahão de Moraes

Nascido na cidade de Itapecerica da Serra, no dia 17 de novembro de 1917, ele era filho de José Elias e Guilhermina Pires de Moraes. Segundo conta a história, ele começou a estudar no ginásio, equivalente a sexta série de hoje, aos 10 anos de idade.

Mas aqui reside um curioso caso de sua vida. Crianças com uma inteligência acima do normal, eram “punidas” pelos regulamentos fiéis a tradição brasileira de desestímulo à educação, oriunda da colonização portuguesa.

Os pequenos mais inteligentes e, que conseguissem concluir o primário logo, eram obrigados a fazer um ano de ensino suplementar, que não era nada mais do que a repetição do último ano do curso primário. Uma “punição”, que depois receberia o belo nome de: curso de admissão ao ginásio.

A alternativa encontrada pelos familiares que se importavam com seu futuro foi a alteração de sua data de nascimento. Dessa história surgem as controvérsias que se encontram em sua documentação, onde o ano de 1916 aparece com freqüência em suas biografias.

Ele foi um dos primeiros alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, para onde se transferiu após dois anos na Escola Politécnica e onde graduou-se em física no ano de 1938, aos 21 anos.

Participou com Mário Schenberg e Walter Schützer do primeiro grupo de pesquisa em Física Teórica criado na USP pelo Professor Gleb Wataghin. Desse tempo são seus primeiros trabalhos publicados pela Academia Brasileira de Ciências.

Em 1945 participou de concurso para a cadeira de Mecânica Racional da Escola Politécnica com uma tese sobre Teoria das Percussões. Classificou-se em segundo lugar, um resultado bastante contestado na época.

A classificação lhe valeu os títulos de Doutor em Ciências e de Livre Docente. Dedicou-se intensamente ao ensino tendo sido professor em diversas unidades da USP, onde seus cursos de Mecânica Racional, Mecânica Analítica, Mecânica Celeste e Física Matemática se notabilizaram pela perfeição e clareza de suas exposições. Em 1949 sucedeu Wataghin na chefia do Departamento de Física.

Sempre se interessou pela Astronomia e em 1949, juntamente com o Prof. Aristóteles Orsini e outros, fundou a Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo da qual foi por várias vezes diretor. Foi convidado para escrever o capítulo “A Astronomia no Brasil”, do livro “As ciências no Brasil” de  Fernando de Azevedo, publicado em 1955.

Em 1954, membros do Conselho Universitário da USP, entre eles o Prof. Orsini, então presidente da Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo e diretor da Faculdade de Odontologia da USP, discutindo a melhor solução para a sucessão do Prof. Alypio Leme de Oliveira na direção do Observatório de São Paulo (Instituto Astronômico e Geofísico da USP), chegaram por consenso ao seu nome.

A sugestão foi levada pelo diretor do Observatório ao governador  do estado, Lucas Nogueira Garcez, também professor da USP e contemporâneo de Abrahão quando estudante na Poli que a acolheu com entusiasmo e tomou para si a missão de convencê-lo a aceitar a incumbência, no que foi bem sucedido. Em 1955 o Prof. Abrahão de Moraes assumiu a direção do Observatório de São Paulo.

Até então, a única atividade científica do Observatório era a coleta sistemática de dados meteorológicos. Além disso, publicava-se um Anuário Astronômico e um Boletim Ionosférico, um com as variações nas posições de estrelas e planetas ao longo do ano e o outro com as previsões mensais do estado da ionosfera e os limites nas frequências que poderiam ser utilizadas nas radio-comunicações em diversas rotas. Em ambos os casos, eram adaptações de efemérides e previsões publicadas nos Estados Unidos e na Europa.

O ambiente deixado pelo diretor anterior não era bom e alguns funcionários tudo fizeram para prejudicar as atividades do Observatório e contrariar as iniciativas do seu novo diretor. Entre os funcionários havia apenas 3 ou 4 com nível superior e nenhum era, de fato, um cientista ativo.

Mas dois deles, emigrados da Europa após o final da guerra, já tinham tido alguma experiência científica e várias  publicações. Suas atividades nas duas décadas anteriores foram prejudicadas pela guerra e suas sequelas. Apesar de muita arrogância, jamais chegaram a liderar projetos científicos à altura dos que seriam necessários para a modernização do Observatório.

Uma feliz circunstância ajudou o Professor Abrahão a iniciar a transformação do IAG. A ONU declarou 1957 como Ano Geofísico Internacional, uma iniciativa que congregou os esforços de 66 países em uma campanha destinada a proporcionar uma maior e melhor compreensão dos fenômenos relacionados à Terra, sua estrutura, composição, propriedades físicas e processos dinâmicos.

Na medida de suas parcas possibilidades, o IAG foi engajado nessa campanha. A estação meteorológica foi renovada e uma colaboração com o Observatório Naval de Washington foi iniciada com a instalação na luneta Zeiss, de uma câmara lunar de Markowitz.

Em 1957, imediatamente após o lançamento do primeiro satélite artificial da Terra (o Sputnik I), suas passagens eram registradas no IAG. No ano seguinte, o radio-interferômetro foi usado para o registro das passagens pelo meridiano de São Paulo do satélite Explorer I, de vida mais longa. Esses registros permitiram observar os efeitos do achatamento da Terra na precessão do plano orbital e determinar o seu valor.

Estimulado por esses sucessos, Abrahão de Moraes dedicou-se a elaborar uma teoria do movimento dos satélites artificiais da Terra. Sua teoria, uma das primeiras sobre o assunto, acabou publicada pela Academia Brasileira de Ciências, contém o cálculo das principais perturbações orbitais devidas ao achatamento da Terra.

Ele possuía um conhecimento ímpar das ferramentas matemáticas da Física e um talento inigualável para a solução de problemas. Exemplo disso encontra-se em um artigo de Wilfred Stevens publicado no Monthly Notices da Royal Statistical Society sobre séries de diluições geométricas.

Wilfred Stevens, egresso de Cambridge e que na sua juventude trabalhou com R.A.Fisher e F.Yates, optou pelo Brasil e aqui ajudou a construir o Departamento de Estatística da USP. Copio partes de um parágrafo desse artigo:  “Unfortunately the integrals prove to be intractable. Consider the simplest case … By numerical integration, the writer showed the result to be log 2, and an ingenious proof of this result has been found by Professor Abrahão de Moraes” (Mon. Not. Roy. Stat. Soc. Ser. B, 20, 205-214, 1958).

A escolha de Abrahão de Moraes para dirigir o IAG em 1955 foi fundamental para o futuro daquela instituição e da Astronomia brasileira. Feliz foi a circunstância de que isto tenha ocorrido quase ao mesmo tempo em que Fernando de Azevedo o convidou para escrever o capítulo de Astronomia de seu livro “As Ciências no Brasil”.

Aquele trabalho lhe deu uma visão abrangente da Astronomia no Brasil que, após um início razoável nos tempos do Império, havia desaparecido – As últimas pesquisas em astronomia realizadas no Brasil, os trabalhos teóricos sobre o movimento dos asteroides e as observações feitas com a luneta zenital para a determinação da variação da latitude do Rio de Janeiro, ambos de Lélio Gama, datavam da década de 1930. O contraste com o progresso que se verificava em outras disciplinas científicas era gritante.

Não existe cientista sem obsessão e o Professor Abrahão não fugia à regra. As condições de pesquisa no Brasil eram difíceis. Pessoas como ele, que nos dias de hoje se notabilizam na Universidade como pesquisadores, naquele tempo se erigiam em grandes professores.

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E isso é o que ele era. Um professor primoroso, que sabia dar uma aula, que sabia transmitir as coisas mais difíceis, mercê, evidentemente, do domínio que tinha do cálculo, da facilidade com que imediatamente se assenhorava das passagens mais difíceis de qualquer demonstração.

Da sua luta incansável resultou a transformação do IAG em unidade de ensino e pesquisa da USP. Mas não teve ele o prazer de estar vivo nesse momento e assistir ao final feliz da sua luta. Ao contrário, em vida conviveu com tenaz oposição da parte dos responsáveis pela Universidade à criação da nova unidade. Mas a comoção provocada por sua morte prematura levou o Reitor da USP, Professor Miguel Reale, a comprometer-se com a sua luta, como pleito à sua memória. E com a decisiva participação do Professor Waldyr Muniz Oliva, isso finalmente ocorreu.

Entre 1959 e 1967, Abrahão de Moraes representou o Brasil no comitê técnico da Comissão do Espaço Cósmico da ONU. Em 1967 foi aprovado para a cátedra de Cálculo Diferencial e Integral da Escola Politécnica da USP, transferida, após a reforma universitária de 1969, para o Instituto de Matemática e Estatística.

De 1965 a 1970, presidiu o Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (hoje INPE) em São José dos Campos, SP. Ele faleceu em São Paulo em 11 de Dezembro de 1970.

PS: Muito se fala sobre a grafia de seu nome, mas em todas as suas obras e publicações, aparece com a letra “h”, ou seja, Abrahão de Moraes.

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