Nascido em 19 de março de 1534 em San Cristóbal de La Laguna, na ilha de Tenerife (Canárias), José de Anchieta integrava uma família nobre e cursou humanidades na Universidade de Coimbra. Em 1553, aos 19 anos e já membro da Companhia de Jesus, desembarcou no Brasil.
Em 1554, com Manuel da Nóbrega, participou da primeira missa celebrada no Pátio do Colégio, marco de fundação do Colégio do Planalto de Piratininga e da cidade de São Paulo. Diante da escassez de professores na ocasião, lecionou latim, castelhano, doutrina cristã e tupi.
Durante os 25 anos de atuação no país, viveu em São Paulo, Itanhaém, Rio de Janeiro, Bahia e Espírito Santo. Sua trajetória abrangeu múltiplos papéis: professor, educador, enfermeiro, linguista, dramaturgo, mestre de obras, estrategista, combatente e refém.
A imagem tradicional de um pregador curvado escrevendo na areia contrasta com o perfil registrado em documentos históricos. Em 1563, durante a Revolta dos Tamoios em Iperoig (atual Ubatuba), ofereceu-se como refém para que Manuel da Nóbrega negociasse a paz em São Vicente. O risco de morte e canibalismo era iminente; em cartas de 1554 aos seus superiores, Anchieta já detalhava que os Tupinambás percorriam longas distâncias para capturar e devorar inimigos em banquetes rituais.
Para resguardar a castidade frente às mulheres oferecidas pela tribo, prometeu escrever um poema em homenagem à Virgem Maria. De memória, compôs 4.172 versos nas areias da praia. Mais tarde, participou diretamente de combates militares: defendeu São Paulo de Piratininga contra os ataques dos Tamoios e lutou ao lado de Estácio de Sá para expulsar os franceses do Rio de Janeiro.
No Rio, atuou na enfermaria do hospital da Santa Casa de Misericórdia, do qual foi um dos fundadores, suprindo pessoalmente a falta de mão de obra e cuidando dos primeiros doentes internados. Entre 1578 e 1595, exerceu a função de Provincial da Ordem dos Jesuítas, promovendo a catequese, o ensino e a fundação de aldeamentos como Ibirapuera, Pinheiros, Carapicuíba e Itaquaquecetuba.
Anchieta também se dedicou ao estudo da cultura e do idioma nativos. É autor da primeira obra sobre o tema, A Arte da Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil, além de ter elaborado o Vocabulário Tupi-Guarani e utilizado o teatro e a música tradicional em seus métodos pedagógicos.
Sem saber, atuou como precursor do registro ambiental no país. Em cartas trimestrais enviadas à Europa, documentava a flora e a fauna da Mata Atlântica. Em maio de 1560, em carta escrita em São Vicente, produziu o primeiro registro descritivo sobre as onças brasileiras, classificando-as como “panteras” e dividindo-as entre variedades pardo-avermelhadas e pintadas.
Dirigiu a missão da Bahia e passou seus últimos anos no Espírito Santo, onde faleceu em 9 de junho de 1597, na aldeia de Rerigtibá (atual cidade de Anchieta). A data marca hoje o “Dia de Anchieta”.
O processo de canonização, oficializado em 1597, foi concluído em 2014 pelo Papa Francisco. Um dos argumentos apresentados ao longo dos séculos foi a saída do cativeiro preservando a integridade física e a castidade, uma vez que Anchieta é um dos raros santos reconhecidos pela Igreja Católica sem registro documentado de milagres em vida. Historiadores conferiram-lhe o título de “Apóstolo do Brasil”.
O Poema que consta no site “Aliança de misericórdia” é esse aqui:
A Compaixão e o Pranto Da Virgem Na Morte Do Filho
Minha alma, por que tu te abandonas ao profundo sono?
Por que no pesado sono, tão fundo ressonas?
Não te move à aflição dessa Mãe toda em pranto,
Que a morte tão cruel do Filho chora tanto?
E cujas entranhas sofre e se consome de dor,
Ao ver, ali presente, as chagas que Ele padece?
Em qualquer parte que olha, vê Jesus,
Apresentando aos teus olhos cheios de sangue.
Olha como está prostrado diante da Face do Pai,
Todo o suor de sangue do seu corpo se esvai.
Olha a multidão se comporta como Ele se ladrão fosse,
Pisam-NO e amarram as mãos presas ao pescoço.
Olha, diante de Anás, como um cruel soldado
O esbofeteia forte, com punho bem cerrado.
Vê como diante Caifás, em humildes meneios,
Aguenta mil opróbrios, socos e escarros feios.
Não afasta o rosto ao que bate, e do perverso
Que arranca Tua barba com golpes violento.
Olha com que chicote o carrasco sombrio
Dilacera do Senhor a meiga carne a frio.
Olha como lhe rasgou a sagrada cabeça os espinhos,
E o sangue corre pela Face pura e bela.
Pois não vês que seu corpo, grosseiramente ferido
Mal susterá ao ombro o desumano peso?
Vê como os carrascos pregaram no lenho
As inocentes mãos atravessadas por cravos.
Olha como na Cruz o algoz cruel prega
Os inocentes pés o cravo atravessa.
Eis o Senhor, grosseiramente dilacerado pendurado no tronco,
Pagando com Teu Divino Sangue o antigo crime!
Vê: quão grande e funesta ferida transpassa o peito, aberto
Donde corre mistura de sangue e água.
Se o não sabes, a Mãe dolorosa reclama
Para si, as chagas que vê suportar o Filho que ama.
Pois quanto sofreu aquele corpo inocente em reparação,
Tanto suporta o Coração compassivo da Mãe, em expiação.
Ergue-te, pois e, embora irritado com os injustos judeus
Procura o Coração da Mãe de Deus.
Um e outro deixaram sinais bem marcados
Do caminho claro e certo feito para todos nós.
Ele aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,
Ela o solo regou com lágrimas tremendas.
A boa Mãe procura, talvez chorando se consolar,
Se as vezes triste e piedosa as lágrimas se entregar.
Mas se tanta dor não admite consolação
É porque a cruel morte levou a vida de sua vida,
Ao menos chorarás lastimando a injúria,
Injúria, que causou a morte violenta.
Mas onde te levou Mãe, o tormento dessa dor?
Que região te guardou a prantear tal morte?
Acaso as montanhas ouvirão Teus lamentos?
Onde está a terra podre dos ossos humanos?
Acaso está nas trevas a árvore da Cruz,
Onde o Teu JESUS foi pregado por Amor?
Esta tristeza é a primeira punição da Mãe,
No lugar da alegria, segura uma dor cruel,
Enquanto a turba gozava de insensata ousadia,
Impedindo Aquele que foi destruído na Cruz.
Mãe, mas este precioso fruto de Teu ventre
Deu vida eterna a todos os fieis que O amam,
E prefere a magia do nascer à força da morte,
Ressurgindo, deixou a ti como penhor e herança.
Mas finda Tua vida, Teu Coração perseverou no amor,
Foi para o Teu repouso com um amor muito forte!
O inimigo Te arrastou a esta cruz amarga,
Que pesou incomodo em Teu doce seio.
Morreu Jesus traspassado com terríveis chagas
Ele, formoso espírito, glória e luz do mundo;
Quanta chaga sofreu e tantas Lhe causaram dores;
Efetivamente, uma vida em vós era duas!
Todavia conserva o Amor em Teu Coração, e jamais
Evidentemente deixou de o hospedar no Coração,
Feito em pedaços pela morte cruel que suportou
Pois à lança rasgou o Teu Coração enrijecido.
O Teu Espírito piedoso e comovido quebrou na flagelação,
A coroa de espinhos ensanguentou o Teu Coração fiel.
Contra Ti conspirou os terríveis cravos sangrentos,
Tudo que é amargo e cruel o Teu Filho suportou na Cruz.
Morto Deus, então porque vives Tu a Tua vida?
Porque não foste arrastada em morte parecida?
E como é que, ao morrer, não levou o Teu espírito,
Se o Teu Coração sempre uniu os dois espíritos?
Admito, não pode tantas dores em Tua vida
Suportar, aguentando se não com um amor imenso;
Se não Te alentar a força do nascimento Divino
Deixará o Teu Coração sofrendo muito mais.
Vives ainda, Mãe, sofrendo muitos trabalhos,
Já te assalta no mar onda maior e cruel.
Mas cobre Tua Face Mãe, ocultando o piedoso olhar:
Eis que a lança em fúria ataca pelo espaço leve,
Rasga o sagrado peito ao teu Filho já morto,
Tremendo a lança indiferente no Teu Coração.
Sem dúvida tão grande sofrimento foi à síntese,
Faltava acrescentá-lo a Tuas chagas!
Esta ferida cruel permaneceu com o suplício!
Tão penoso sofrimento este castigo guardava!
Com O querido Filho pregado a Cruz Tu querias
Que também pregassem Teus pés e mãos virginais.
Ele tomou para Si a dura Cruz e os cravos,
E deu-Te a lança para guardar no Coração.
Agora podes, ó Mãe, descansar, que possui o desejado,
A dor mudou para o fundo do Teu Coração.
Este golpe deixou o Teu corpo frio e desligado,
Só Tu compassiva guarda a cruel chaga no peito.
Ó chaga sagrada feita pelo ferro da lança,
Que imensamente nos faz amar o Amor!
Ó rio, fonte que transborda do Paraíso,
Que intumesce com água fartamente a terra!
Ó caminho real com pedras preciosas, porta do Céu,
Torre de abrigo, lugar de refúgio da alma pura!
Ó rosa que exala o perfume da virtude Divina!
Jóia lapidada que no Céu o pobre um trono tem!
Doce ninho onde as puras pombas põem ovinhos,
E as castas rolas têm garantia de suster os filhotinhos!
Ó chaga, que és um adorno vermelho e esplendor,
Feres os piedosos peitos com divinal amor!
Ó doce chaga, que repara os corações feridos,
Abrindo larga estrada para o Coração de Cristo.
Prova do novo amor que nos conduz a união!
Porto do mar que protege o barco de afundar!
Em Ti todos se refugiam dos inimigos que ameaçam:
Tu, Senhor, és medicina presente a todo mal!
Quem se acabrunha em tristeza, em consolo se alegra:
A dor da tristeza coloca um fardo no coração!
Por Ti Mãe, o pecador está firme na esperança,
Caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança!
Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo,
Jorrando água para a vida eterna!
Esta ferida do peito, ó Mãe, é só Tua,
Somente Tu sofres com ela, só Tu a podes dar.
Dá-me acalentar neste peito aberto pela lança,
Para que possa viver no Coração do meu Senhor!
Entrando no âmago amoroso da piedade Divina,
Este será meu repouso, a minha casa preferida.
No sangue jorrado redimi meus delitos,
E purifiquei com água a sujeira espiritual!
Vivere dulce dies, hic mihi dulce mori!
Embaixo deste teto que é morada de todos,
Viver e morrer com prazer, este é o meu grande desejo.
