O bairro que surgiu ao redor do matadouro: a história da Vila Mariana

Um dos bairros mais tradicionais da zona sul de São Paulo possui uma história um tanto quanto “diferente”. A região cresceu junto com o “Matadouro Municipal do bairro de Vila Mariana”. Esse negócio, digamos assim, foi criado para tirar o matadouro do Centro de São Paulo, já que o trabalho não era limpo e deixava rastros que prejudicavam as pessoas que moravam por lá.

Em resumo: quiseram colocar o “trabalho sujo” na “periferia” que era a Vila Mariana da época. Para registro, diz a lenda que o antigo matadouro municipal, que ficava no Rio Itororó, hoje avenida 23 de maio, chegava a ficar vermelho de sangue e contaminado com os restos dos animais mortos.

O problema do centro era tão grande que um médico chamado Alfredo Elis fez um estudo e, desse estudo, enviou um ofício para o poder público sobre os riscos da contaminação dos rios do centro de São Paulo.

Matadouro Vila Mariana
Matadouro Vila Mariana

Importante relembrar que o matadouro teve grande contribuição de Alberto Kuhlmann, que o proprietário de uma empresa chamada Cia. Carris de Ferro. Esse engenheiro, além de trabalhar no edifício, ainda ajudou na modernização de uma estrada de ferro que levasse os animais até o local.

Essa linha, inaugurada em 1886, foi colocada sobre o antigo Caminho do Carro para Santo Amaro, no trecho então conhecido como Estrada do Fagundes e com isso ocorreu o fracionamento das chácaras existentes na região. Segundo registros históricos, o gado ficava pastando no que hoje é o Parque Ibirapuera e não incomodava os “ricos” do centro.

A parada do matadouro ficou conhecida como Mariana Mato Grosso, nome de sua esposa. Essa é uma das teorias do nome do bairro. Vila Mariana seria, portanto, em homenagem à esposa do engenheiro.

Inaugurado e começando suas atividades em 1887, o matadouro ficava no largo Senador Raul Cardoso e produzia 14 mil quilos diários de carne bovina para as 70 mil pessoas de São Paulo. O matadouro desempenhou sua função até o ano de 1927.

Depois, o edifício teria várias outras utilidades. Décadas depois o prédio acabaria se tornando um grande acervo cinematográfico do Brasil. O local, que acabou tombado como patrimônio histórico da cidade e se tornou a Cinemateca Brasileira, fruto de intensos debates entre os poderes estadual e federal.

O prédio passou por modificações para que conseguisse ser adaptado e pudesse receber pessoas e salas de cinema.

Importante dizer que, após a chegada do matadouro, diversas indústrias vieram ao local. Na esquina da Rua Joaquim Távora com a Humberto I, foi construída a fábrica Bozzano, que fazia uma linha de cosméticos e cheirava a esmalte.

Também na Joaquim Távora com a Domingos de Morais havia uma fábrica de fósforos, que uma vez pegou fogo. Tinha também a fábrica de pianos Brasil, cujo dono era o presidente do Palestra Itália, e a fábrica de chocolate Lacta, na Rua José Antônio Coelho – que também pegou fogo, e o bairro ficou com cheiro de chocolate. A fábrica da Walita produzia ventiladores e ficava na Rua Dr. Álvaro Alvim, onde é a Belas Artes, e a de lustres, onde foi construído o Sesc Vila Mariana.

Fabrica da Lacta, na Vila Mariana. Sem data
Vila Mariana nos anos 70. A lanchonete está entre a Av Lins de Vasconcelos esquina com R. Heitor Peixoto

Outra teoria

Existe uma segunda teoria para o nome da Vila Mariana. Essa, um pouco mais romântica, fala que o nome surgiu graças à junção de Maria e Anna, parentes do Coronel da Guarda Nacional Carlos Eduardo de Paula Petit. Mas quem foi esse personagem?

Segundo o Dicionário de Ruas:

O tenente coronel da Guarda Nacional Carlos Eduardo de Paula Petit, foi um líder e um dos mais importantes personagens da história de Vila Mariana, onde foi residir no ano de 1885. Em 1886, ainda encontramos registros de Carlos Petit como aluno da Escola Normal, onde também estudava a sua irmã, D. Augusta Petit Wertheimer que foi casada com o Dr. Deodato Wertheimer.

Carlos Petit foi inicialmente Suplente de subdelegado de Vila Mariana em 1890, chefe político e vereador entre 1899 e 1902, Juiz de Paz em 1898, tenente coronel nomeado em 1908 e, por fim, Administrador do cemitério de Vila Mariana até 1922, quando faleceu.

Sua esposa, D. Maria Bittencourt Petit, foi a primeira professora de Vila Mariana. No período em que foi vereador, foi autor de diversos requerimentos e solicitações em prol da Vila Mariana, onde residia. Sua primeira atuação nesse sentido veio logo nos primeiros dias de mandato, quando apresentou o seguinte projeto: “Carecendo de reparo as ruas Vergueiro, Dr. Domingos de Moraes e França Pinto que devido ao estado deplorável em que se acham, torna-se dificultoso o trânsito de veículos por lá, esta Câmara autoriza o Dr. Prefeito a mandar aterrar os buracos nas mesmas existentes, facilitando o escoamento das águas pluviais. Sala das sessões, em 3 de Fevereiro de 1899. Carlos Petit.”

Esta foi a primeira de muitas solicitações que visavam trazer melhorias para o bairro. A 7 de novembro de 1899 ele novamente reclamava por melhoramentos em Vila Mariana, ocasião em que fez a seguinte indicação: “Indico que o Sr. Prefeito solicite do Dr. Secretario de Agricultura a continuação da iluminação da rua Dr. Domingos de Moraes até a rua da Saudade, inclusive esta, voltando-a pela rua Vergueiro até o ponto já iluminado.”

Em seguida, continuou: “indico que o Sr. Prefeito oficie ao Sr. Secretario de Agricultura solicitando providências no sentido de serem feitas as redes de esgotos em Vila Mariana. S. Paulo 7 de Novembro de 1899. Carlos Petit.”

Interessante notar que ainda vivo e em plena atividade, ele foi homenageado com seu nome nesta rua, cuja primeira referência pode ser encontrada nas Atas da Câmara de 02/12/1899, ocasião em que este logradouro já era chamado de Rua Carlos Petit.

Vida familiar: Carlos Petit era filho de D. Felippa Petit que, viúva, casou-se pela segunda vez com Narciso Coelho Netto, passando a assinar Felippa Petit Netto. D. Felippa faleceu em São Paulo no dia 20/10/1919.

Carlos Petit foi casado com D. Maria Bittencourt de Paula Petit, com quem teve os filhos Newton Petit, Ermelinda, Nilla, Eduardo, Oswaldo e Cordolina. A sua esposa D. Maria ou “Mariquinha” como era mais conhecida na Vila Mariana, faleceu em São Paulo no dia 24/05/1940, aos 76 anos e foi sepultada no cemitério da Consolação. Carlos Petit faleceu em São Paulo no dia 24/06/1922 quando contava 59 anos de idade e foi sepultado no cemitério da Consolação.

E aí, qual história você acha que “casa” mais?

https://dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br/logradouro/rua-carlos-petit

https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bibliotecas/bibliotecas_bairro/bibliotecas_m_z/viriatocorrea/index.php?p=3761

13 thoughts on “O bairro que surgiu ao redor do matadouro: a história da Vila Mariana

  • 7 de dezembro de 2016 em 19:38
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    Senhores(as)
    O texto sobre o antigo “Matadouro de São Paulo” é muito interessante, instrutivo e complementa informações que tenho da região por estudos particulares meus. Ouvidos pessoalmente de relatos de idosos que já se foram e comigo deixaram um pouco da história do local.
    Apenas faço uma observação sobre a adjetivação “população rica da cidade”. Porque esse grifo? Alimentava a população rica , pobre e mais ou menos. Ali nesse tempo também pastavam cavalos que atrelados nas madrugadas levavam o pão e o leite matinal a TODA população daquela parte da cidade. Qual o problema em ser rico? Porque o tom sarcástico?
    Acrescento também a passagem “função macabra”. Se o autor não sabe essa função existe até hoje e está presente no seu pratinho todos os dias.
    Desculpem o comentário mas essa atual birra de classes no país JÁ ENCHEU.
    Boas festas a todos e parabéns pelo trabalho.
    Abraços

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    • 9 de fevereiro de 2019 em 08:26
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      Sr. Norberto Correia, pelo visto você deve ser uma pessoa instruída, certo?
      Não mora, nem nunca morou, em favela.
      Esse negócio de “birra” de classes, não é coisa de brasileiro nem mimimi. O nome disso é “Consciência de classe”.
      Provavelmente você sabe disso, mas ignora esse tipo de ideia exatamente por pertencer a uma classe mais privilegiada.
      Sendo assim, a resposta a sua pergunta é simples: o problema não é ser rico, isso que está difícil de colocar na cabeça das pessoas, o problema é “a que custo ser rico?”. É uma questão de ética e de atitude. Enriquecer as custas da miséria alheia é o problema. Enriquecer trabalhando contra a classe menos favorecida é errado.
      O que encheu o saco, na verdade, é rico se magoando quando se fala em consciência de classe. Sabe por quê? Porque alguma coisa ele deve ter a esconder.
      Por fim, você não entendeu o asterisco em “ricos”. Por favor, leia novamente.
      Abraço.

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      • 13 de agosto de 2019 em 22:52
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        Realmente essa suposta “luta de classes” já cansou. E não sou rica e nem tenho nada a esconder.

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      • 6 de novembro de 2019 em 05:17
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        Sou pobre e faço ecos ao que o colega (sendo rico ou não) ali em cima falou: essa babaquice de lutas de classe já deu. Enquanto nos unirmos como Nação e pararmos com esse chororô interminável (dívida histórica? Ai meu Deus, para, né?) nunca evoluiremos e continuaremos “marcando passo”, sem sair do lugar. Ou seja, já deu com esse papinho…

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      • 10 de outubro de 2021 em 12:23
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        Quem não entendeu fui eu. Não entendi a sua colocação sobre ganhar dinheiro à custa, o que isso tem a ver com o matadouro?

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    • 12 de fevereiro de 2020 em 23:08
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      Esse Matadouro ñ fica na Vila Clementino onde passava o bonde 47 Vila Clementino?

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  • 2 de novembro de 2017 em 22:22
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    A Vila Mariana tem muitas histórias interessantes. Seria importante ter reuniões periódicas na biblioteca Viriato Correa ou na Cinemateca de pessoas interessadas em contribuir com fotos e documentos para um melhor conhecimento do passado. Considero importante o engajamento da nossa rede escolar estimular a pesquisa da sua evolução.

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  • 12 de janeiro de 2018 em 11:43
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    bom dia……adorei a reportagem……..nasci em 1951 e morei alguns anos no Largo do Matadouro…… Muitas recordacoes…………indlusive dis bondinhos que passavam por ai.

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  • 10 de abril de 2019 em 12:18
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    O Condephat considerou à época do tombamento, a arquitetura do Matadouro e tambem a Praça Sen. Raul Cardoso, que mantinha as características urbanisticas(piso em paralelepípedo) da época.
    Qual não foi a minha surpresa, em 2012 houve uma reforma da referida praça com o soterramento com capa asfáltica!!!! um absurdo!! ..

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  • 29 de julho de 2019 em 03:48
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    “Após a parada dessa atividade, o edifício teria várias outras utilidades que acabariam interferindo em sua estrutura arquitetônica”.
    A reportagem poderia esclarecer quais foram essas outras atividades. Alguém sabe quais foram essas outras atividades entre o fim do matadouro e a Cinemateca?

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  • 16 de julho de 2020 em 17:04
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    Um dia eu sentei ao lado de um senhor, no ônibus, que me perguntou se eu sabia a razão da rua se chamar Rua Santa Cruz (estávamos passando por ela), no bairro de Vila Mariana e começou a contar sobre o assassinato de uma mulher pelo seu marido que achara que fora traído e … aí … chegou o ponto de descida dele … e eu fiquei sem o resto da história. Alguém saberia terminar?! É que essas histórias de mulheres supostamente traidoras mortas por homens me deixam indignada e queria saber o resto. Por que o nome de Rua de Santa Cruz? Foi provada a inocência dela e a culpa do carrasco?

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    • 29 de dezembro de 2021 em 02:32
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      Esqueci de dizer que o homem contou que a rua Santa Cruz se chamava antes Cruz das Almas.

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  • 23 de fevereiro de 2022 em 11:49
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    Excelente materia. Abre as portas de coisas que não conhecíamos sobre lugares que nos são tão familiares. Pena que sempre tem o inconveniente de alguém pinçar um dado do texto para fazer proselitismo político de baixo nível e demagógico. Ricos x pobres, brancos x negros e por aí vai. Reparem que sempre quem reclama são aqueles que não teriam motivo para isso….é a turma do mimimi terceirizado. Parabéns pela materia!!!!!

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