Um nazista na Guarapiranga: a história de Herberts Cukurs

Essa história é uma das mais curiosas que já escrevi para a SP In Foco. Ela envolve, ao mesmo tempo, um nazista, a invenção dos pedalinhos da Lagoa Rodrigo de Freitas (RJ) e uma empresa que oferecia tours em hidroaviões na Represa Guarapiranga, na Zona Sul de São Paulo. 

O personagem dessa história é Hebert Cukurs, nascido em 17 de maio de 1900 e que foi capitão aviador da Força Aérea Letã e considerado um herói nacional. Pelo menos até a invasão alemã à Letônia, quando tudo mudou. Quando a ocupação alemã em terras letãs foi finalizada, Cukurs fez parte do Comando Arajs, unidade policial especializada em assassinar judeus, ciganos, deficientes mentais e civis.

Ficha de Cukurs

Um trecho retirado do livro “Caçadores de Nazistas”, de Andrew Nagorski, dá dimensão à atuação de Cukurs na Segunda Guerra Mundial:

“David Fiszkin, outro sobrevivente, declarou em depoimento que Cukurs acompanhava s judeus na marcha para a mata, guiando a última fila da coluna e atirando em quem ficasse para trás. “Quando uma criança chorava, Cukurs a arrancava dos braços da mãe e a matava a tiro”, contou. “Eu o vi matar dez crianças e bebês com meus próprios olhos”.

Por ter sido uma celebridade na Letônia antes da guerra, Cukurs era identificado com facilidade pelos sobreviventes, ao contrário de outros casos, em que com frequência, um assassino era confundido com outro. Sua unidade foi responsável pela morte de cerca de 30 mil judeus, e ele se tornou conhecido como o “Carrasco de Riga” ou o “Enforcador de Riga”. “

O site Aventuras na História destaca outro episódio de crueldade de Cukurs, onde ele teria queimado uma sinagoga lotada de judeus. Porém, em 4 de março de 1946, uma segunda-feira de Carnaval, Herberts chegou ao Brasil a bordo do navio espanhol “Cabo da Boa Esperança”. E ele não veio sozinho de Marselha, na França.

No dia 5 de fevereiro, Cukurs embarcou acompanhado da mulher, Milda, de 38 anos; dos três filhos, Gunnars, de 14, Antinea, de 12, e Herberts, de 4; da sogra, Made, de 64; e de uma jovem judia chamada Miriam Kaicners, de 23. Do cais, Cukurs e sua família seguiram para um sobrado em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio. Já Miriam foi morar com uma família judaica (irônico, né?) de sobrenome Chapkosky.

Abastado, o letão tinha uma máquina fotográfica da marca Leika que valia Cr$ 8,5 mil. A título e curiosidade: o salário mínimo da época era de Cr$ 380 e, esse dinheiro, foi o trampolim para que ele desse início aos seus empreendimentos.

O de maior destaque, no Rio de Janeiro, foi a implantação de pedalinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas. Foi neste estado, inclusive, que Cukurs começou a enfrentar problemas no Brasil. No dia 2 de setembro de 1950, por exemplo, a “Revista da Semana” publicou uma extensa matéria sobre o letão. 

Com o título de “Defende-se o “homem dos pedalinhos” “, o repórter Carlos Tenório trouxe um perfil de Cukurs e sua família. Se quiserem ler a matéria completa, o link está no final do texto.

O repórter traz informações, até então, inéditas, e destaco uma delas: a ideia de Cukurs em se defender usando um livro que, segundo ele, mostraria que a Letônia não era antissemita e que ele não era citado como um dos líderes de nenhum de campo de concentração e de nenhuma força armada. Além disso, quando questionado se lutou pelos nazistas ele responde sempre que lutou “contra os russos”, uma manobra para fugir à resposta.

Voltando à passagem dele pelo Brasil, nessa época vazaram as denúncias da Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro. Para o jornal Tribuna da Imprensa, Cukurs virou o “nazista dos pedalinhos”. Indignada, a população da então capital federal do país pediu a imediata expulsão de Herberts Cukurs do país.

Uma matéria da BBC relata bem o que ocorreu na época: 

Na coletiva de imprensa, compareceram alguns dos repórteres mais importantes da época, como Joel Silveira (1918-2007), do Diário de Notícias, e Austregésilo de Athayde (1898-1993), do Diário da Noite. A Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro distribuiu cópias datilografadas dos depoimentos de quatro sobreviventes: David Fischkin, Max Tukacier, Abram Shapiro e Rafael Schub.

Sob juramento, relataram episódios estarrecedores, que eles próprios testemunharam ou sofreram, protagonizados por Cukurs. Fischkin descreveu o letão como “um criminoso de guerra” que, no dia 30 de novembro de 1941, fuzilou 16 mil judeus, entre homens, mulheres e crianças, na floresta de Bikernieku.

(…)

Segundo os relatos dos sobreviventes, gostava de atirar nos calcanhares de suas vítimas quando elas fugiam. Assim que caíam indefesas, mirava em suas nucas e apertava o gatilho. “. (em respeito aos leitores, deixo os relatos mais pesados no link aqui, caso queiram ler)

Com a repercussão desfavorável do caso, a prefeitura do Rio não renovou o alvará de licença dos pedalinhos, o Ministério da Aeronáutica cassou seu brevê de piloto e o da Justiça não deu prosseguimento ao seu pedido de naturalização. No ano de 1951, Cukurs e sua família mudaram-se para Niterói e, em 1953, seguiram para Santos. Em 56, Cukurs chegou a São Paulo, mais especificamente na Represa Guarapiranga.

Cukurs não era uma pessoa pobre. Ele chegou a ter fazendas de bananas, hidroaviões em Santos e, a Guarapiranga, foi apenas uma extensão de seus negócios. Ele conseguiu um sucesso absoluto com a população, prova disso é que há na internet, especialmente no site São Paulo Minha Cidade, relatos emocionados de pessoas que lembram desses passeios.

Uma curiosidade que vi no Airway: Cukurs contribuía voluntariamente nas horas vagas na distribuição de panfletos para conscientização da população da importância da vacinação contra a poliomielite, o que lhe rendeu um título de agradecimento feito pelo Governo de São Paulo em 1962 pelos relevantes serviços prestados.

O texto do agradecimento era esse: “Em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à população paulistana, ao Comandante Cukurs é concedido este título de agradecimento e louvor pela sua excepcional dedicação, colaborando para o êxito da campanha de vacinação contra a poliomielite.”

Outra aspa que destaco é a do historiador Bruno Leal, professor de História Contemporânea pela Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro O homem dos pedalinhos. Herbert Cukurs: A história de um alegado criminoso nazista no Brasil do pós-guerra (FGV Editora).

“Cukurs não entrou no Brasil através das rotas de fuga usadas por criminosos nazistas depois da guerra. Entrou legalmente, beneficiado pela política imigratória racista que vigorava em nosso país: ele era branco, europeu e cristão.”.

Enfim, o fim

Ao contrário de muitos nazistas que conseguiram fugir, Cukurs teve um fim cinematográfico. E seu fim tem relação com Adolf Eichmann, um dos criminosos de guerra mais procurados do mundo. Ele foi capturado, em 23 de maio de 1960, na Argentina, pelo serviço secreto israelense, o Mossad, e levado para Israel onde foi julgado por sua participação no extermínio de judeus. Considerado culpado, Eichmann foi enforcado no dia 1º de junho de 1962.

Cukurs se desesperou e chegou a tirar porte de arma. No fim de sua vida, andava com uma Beretta, 6.35 mm — e chegou a ter (pasmem) proteção policial.  No dia 12 de setembro de 1964, chegou ao Brasil um suposto empresário austríaco chamado Anton Kuenzle.

Kuenzel era, na verdade, Yaakov Meidad (1919-2012), o agente da Mossad responsável pela captura de Eichmann na Argentina, que estava de olho em Cukurs. Em pouco tempo eles ficaram “amigos” e Meidad convenceu Cukurs a ir para o Uruguai.

Em 23 de fevereiro de 1965, os dois embarcaram para Montevidéu. Quando Cukurs descobriu que tinha caído numa armadilha, foi tarde demais.

Surpreendido por quatro agentes do Mossad e, apesar dos seus 64 anos, Cukurs ofereceu resistência. “O medo da morte deu a ele uma incrível força”, escreveu Kuenzle em A Execução do Carrasco de Riga (2004), escrito em parceria com o jornalista israelense Gad Shimron. “Lutou como um animal selvagem e ferido”.

Durante a briga, um dos agentes pegou um martelo e acertou a cabeça de Cukurs. Na sequência, ele foi executado com dois disparos. O corpo de Herberts Cukurs foi encontrado por Alejandro Otero, comissário de polícia de Montevidéu, no dia 6 de março de 1965. Estava dentro de um baú de madeira, em avançado estado de decomposição.

Otero tinha recebido uma denúncia anônima. Sobre o cadáver, uma nota que dizia: “Considerando a gravidade dos crimes de que é acusado Herberts Cukurs, especialmente a sua responsabilidade no assassinato de 30 mil homens, mulheres e crianças, nós o condenamos à morte”.

O grupo que assinou o bilhete se autodenominava “Aqueles que não esquecerão”.

Proteção policial?

Uma matéria do jornal Folha de S. Paulo mostra que, em 1960, Cukurs chegou a ter policiais em frente a sua casa para evitar ataques.

A proteção policial a Cukurs está documentada em um dossiê encontrado no arquivo do Dops (Departamento de Ordem Política e Social da polícia) pelo historiador Erick Godliauskas Zen. 

Seu filho e sua família, claro, sempre negaram a relação de Cukurs com o nazismo. Isso também foi registrado em uma matéria da Folha de S. Paulo. 

Referências: 

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/03/06/herberts-cukurs-o-nazista-que-viveu-por-20-anos-no-brasil-e-foi-executado-no-uruguai-por-agentes-do-mossad.ghtml

https://saopaulominhacidade.com.br/historia/ver/2300/Hidros+da+Guarapiranga/pagina/1

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/cukurs-o-membro-do-terceiro-reich-responsavel-por-30-mil-mortes-que-foi-protegido-pela-ditadura-militar.phtml

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0608200606.htm

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0608200601.htm

http://memoria.bn.br/pdf/025909/per025909_1950_00035.pdf