Desespero nas portas do céu: o naufrágio do Príncipe de Astúrias

O Brasil tem a história do seu próprio “Titanic”. Um naufrágio terrível, na costa de Ilhabela, que ocorreu em março de 1916 e é pouco lembrado por conta da Primeira Guerra Mundial.

Na ocasião, o Príncipe de Astúrias, por volta das 4h15 da madrugada do dia 5 de março, colidiu com uma barreira de corais na Ponta de Piraburra. Com a batida, uma fenda de 40 metros se abriu e o navio afundou em apenas 5 minutos.

Segundo informações da própria Prefeitura de Ilhabela, a casa de máquinas foi inundada, as caldeiras explodiram e o navio se partiu em três pedaços.

Oficialmente estavam embarcadas 588 pessoas, mas estima-se que mais de 1.000 estavam no navio: eram pessoas de todas as etnias: espanhóis, italianos, portugueses, brasileiros, franceses, sírios, turcos, argentinos e ingleses, trabalhadores em busca de um novo começo.

Apenas 143 pessoas foram resgatadas. Os corpos acabaram se espalhando pelo litoral norte e muitos foram enterrados nas próprias praias da região.

Até hoje, os corpos do capitão, José Lotina, e do primeiro oficial, Antônio Salazar Linas, nunca foram encontrados. Estima-se que tenham afundado junto ao navio.

Sobre o navio

O navio foi construído, na Escócia, em 1914 com uma estrutura conhecida como duplo casco.

Por algum tempo foi considerado o navio mais luxuoso da Espanha, com restaurante, biblioteca, sala de música e camarotes de primeira classe. Ele tinha capacidade para até 1890 passageiros, divididos em três classes.

A rota da embarcação era a seguinte: sairia de Barcelona, passaria por Cádiz, Las Palmas, Ilhas Canárias, Rio de Janeiro, Santos, Montevidéu e pararia em Buenos Aires. E era a sétima vez que o barco fazia o percurso.

Além dos milhares de passageiros já citados, o navio ainda transportava armas para a Marinha Argentina, 12 estátuas de mármore e bronze para um monumento em Buenos Aires além de 40 mil libras em ouro, que nunca foram encontradas.

Os destroços do navio estão a 30 metros de profundidade, ao lado da Ponta Pirabura e partes da embarcação podem ser vistas sob o mar.

Parte dos objetos resgatados fazem parte do Museu Náutico de Ilhabela, inaugurado em 2022. O local tem visitação gratuita e placas explicativas sobre cada um dos objetos resgatados.

A cobertura da imprensa

O naufrágio gerou uma extensa cobertura da imprensa da época. Jornais como a A Tribuna e o Correio Paulistano, importantes veículos da época, dedicaram longas explicações sobre a tragédia.

A “A Tribuna” do dia 7 de março de 1916 destacou a “Formidável catástrofe marítima” com manchetes que enfatizavam a perda de vidas e os esforços de resgate. A notícia mencionou a mobilização das autoridades da marinha e a atuação heroica dos oficiais e tripulantes do navio “Vega” no socorro aos náufragos. A chegada do navio “P. de Satrustegui” com 6 cadáveres resgatados reforçou a gravidade da situação .

Já o “Correio Paulistano”, também dedicou sua atenção à “TRAGEDIA NO MAR” envolvendo “O “PRINCIPE DAS ASTURIAS””. O jornal cobriu o naufrágio do “grande e moderno transatlantico hespanhol, ha dias naufragado nas costas brasileiras”.

O naufrágio do “Príncipe de Astúrias” teve grande repercussão nacional, embora internacionalmente a atenção estivesse voltada para a Primeira Guerra Mundial, na qual a Espanha mantinha uma posição de neutralidade.

Já “A Gazeta”, jornal de São Paulo, registrou que o vapor espanhol “Príncipe de Astúrias” naufragou tragicamente próximo a Santos, em frente à Ponta do Boi, no dia 5 de março de 1916.

O jornal destaca a “grande tragédia no mar” com a manchete alarmante: “Das 600 pessoas que se achavam a bordo… só se tem notícia de 50”. Outras fontes mencionam “quatrocentas e quarenta e sete pessoas pereceram” (447 passageiros e tripulantes).

O relato detalha o “sinistro”: o navio, considerado um dos mais luxuosos e rápidos, bateu na Ponta do Boi por volta das 4 horas da manhã, sob forte nevoeiro. Testemunhas descrevem cenas dramáticas de desespero e o “fundo pânico” que se instalou.

O navio afundou rapidamente, em menos de cinco minutos. Um vapor francês, o “Vega”, prestou socorro e conseguiu salvar alguns sobreviventes. Entre os relatos trágicos, menciona-se que o comandante se suicidou após o desastre.

Em Ilhabela, no litoral de São Paulo, há um museu náutico com exposição permanente sobre o caso. Restos do navio, objetos que estavam dentro da embarcação e uma larga explicação fazem parte do conteúdo exposto. A entrada no museu, que fica no centro da Ilha, é gratuita.

A Gazeta de 1916: destaque para a cobertura do naufrágio

Fontes: BN Nacional. Para acesso aos recortes de jornal de época, escolher o período correto, que comporte o ano de 1916 e digitar “Príncipe de Astúrias”, assim mesmo, entre aspas.

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