O arquiteto escravo de São Paulo: a história de Tebas

Falar da história de São Paulo e, em especial do centro, é complicado. É fácil contar a história da Catedral da Sé, da Estação da Luz e da fundação de São Paulo. São temas comuns à população e que, a maioria, tem alguma noção de sua trajetória de formação.

Entretanto, enquanto são feitas pesquisas, é possível descobrir curiosidades que, na maioria das vezes, são ignoradas pela maioria das pessoas e, até mesmo, pelos jornalistas em geral. Tive a oportunidade de, em uma grande pesquisa que estou fazendo para a SP In Foco, me deparar com o nome de Tebas ou Joaquim Pinto de Oliveira, como também era conhecido.

Nascido em 1721, na cidade de Santos, no litoral do estado, ele foi escravizado por Bento de Oliveira Lima, português e um dos mais reconhecidos mestre de obras da região. Foi com ele que Tebas teve seus primeiros ensinamentos de pedreiro. Com o passar do tempo e a falta de oportunidades em Santos, os dois subiram a serra em busca de serviços melhores.

E foi aí que Tebas passou a fazer parte da história de São Paulo. Por volta de 1750, com 29 anos, Tebas teve uma ascensão meteórica em seu ofício de construtor, sendo o responsável por empreendimentos como: projetar e construir a torre da primeira Catedral da Sé, o frontão (conjunto arquitetônico que decora o topo do lado principal de um edifício) do Mosteiro de São Bento e os elementos decorativos da fachada da Igreja da Ordem Terceira do Carmo.

Igreja Matriz da Sé, onde Tebas construiu a torre, em 1750, e executou a reforma do prédio, entre 1777 e 1778

Alforriado entre 1777 e 1778, aos 57 ou 58 anos de idade, Tebas morreu no dia 11 de janeiro de 1811, vítima de gangrena, aos 90 anos. O velório e o sepultamento foram realizados na Igreja de São Gonçalo, ainda hoje existente na Praça João Mendes.

Encontrei várias referências relativamente atuais ao trabalho de Tebas, como a de Benedito Lima de Toledo, professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAUUSP), em entrevista concedida à revista “Leituras da História” (2012), destacando que Joaquim Pinto de Oliveira soube captar a religiosidade da época e expressá-la de maneira muito pessoal.

“Essa expressão da religiosidade é que o transformou em arquiteto e as suas obras em arte. Pode-se dizer que Tebas foi decisivo para a constituição daquilo que Luís Saia, outro arquiteto de peso, chamou certa vez de período de ‘renovação estilística, ocorrido especialmente nas igrejas na segunda metade do século 18’”, afirma Abílio Ferreira.

Uma curiosa “estória” sobre o arquiteto

Encontrei nesse link a seguinte história:

No século XVIII, enquanto construíam a primeira catedral da Sé, em São Paulo, Tebas passava um bom tempo observando as obras. Intrigado com a curiosidade do escravo, o padre Justino, capelão do Convento do Carmo, perguntou-lhe o motivo dele estar ali. Tebas retribuiu com outra pergunta: “Cadê a torre?”

Justino disse que não havia nenhum construtor capaz de erguer tal torre. Tebas, que dominava a técnica de taipa e pilão, entendia de alvenaria e hidráulica, se dispôs a construí-la, sob duas condições: receber sua carta de alforria e que o primeiro casamento da catedral fosse o dele. E, em 1755, ficou pronta a primeira catedral da Sé, com a torre construída por Tebas.                                                                         

Homenagens e um livro sobre o arquiteto

Também é possível encontrar algumas homenagens, ainda que poucas, ao trabalho executado por Tebas. O grande compositor Geraldo Filme fez uma música em homenagem ao artista, que você pode conferir abaixo:

Além disso, há um livro, que não encontrei em lugar nenhum, mas que foi lançado recentemente sobre a obra e a vida de Tebas. A descrição do livro é a seguinte:

Tebas: um negro arquiteto na São Paulo escravocrata (abordagens), organizado pelo escritor e jornalista Abilio Ferreira, é a primeira publicação de não ficção dedicada ao construtor, reunindo artigos de cinco especialistas. Tebas foi o responsável pela construção do Chafariz da Misericórdia (1792), sua obra mais conhecida, além dos ornamentos de pedra da fachada das principais igrejas paulistanas da época, como a da Ordem Terceira do Carmo (1775-1776), a do Mosteiro de São Bento (1766 e 1798), a da velha Catedral da Sé (1778), a da Ordem Terceira do Seráfico São Francisco (1783) e, também, do enorme Cruzeiro Franciscano da cidade de Itu (1795).

Referências: https://www.geledes.org.br/sasp-realiza-homenagem-joaquim-pinto-de-oliveira-tebas-o-negro-arquiteto-do-seculo-18/

https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bma/programacao/index.php?p=25313

https://catracalivre.com.br/agenda/passeio-no-centro-visita-monumentos-feitos-por-escravo-arquiteto-sp/

http://negrobelchior.cartacapital.com.br/livro-analisa-legado-de-tebas-negro-escravizado-que-se-tornou-arquiteto-no-brasil-colonial/

 

2 comentários em “O arquiteto escravo de São Paulo: a história de Tebas

  • 26 de junho de 2019 em 05:11
    Permalink

    Obrigada por partilhar tão interessantes fatos. Li e reli e aprendi mais um pouquinho sobre a arquitetura da cidade de São Paulo!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *