Vila Leopoldina: a história de “um pedaço” da Lapa

Por muito tempo considerada um “pedaço” da Lapa, a Vila Leopoldina é um retrato da memória industrial e ferroviária de São Paulo. A história do bairro remonta ao começo do século XIX, quando ainda era conhecido como sítio Emboaçava que, desde 1827, pertencia a João Correia da Silva. Além do nome Emboaçava, o local também era conhecido por Várzea dos Correias, referência ao sobrenome de João.

Com o passar do tempo, alguns jesuítas de origem alemã adquiriram o local e construíram uma grande casa para morar. Em 1894, os primeiros loteamentos apareceram na região, quando uma empresa adquiriu as chácaras e começou a retalhar o grande terreno com milhares de metros quadrados.

O primeiro grande loteamento do local foi aconteceu no mesmo ano, 1894, quando a E. Richter & Company, realizou uma jogada publicitária ousada: os proprietários alugaram barcos para que os interessados navegassem pelo Rio Tietê e olhassem os terrenos que estavam a disposição no local. A jogada foi um sucesso e terminou com um grande piquenique para mais de quinhentos convidados.

Uma passagem curiosa merece ser lembrada. Em 1895, o jornal O Estado de São Paulo listou os vencedores de uma “rifa entre amigos” que oferecia como prêmio terrenos na Vila Leopoldina. O anúncio do jornal chamava os contemplados a comparecer na Casa Steiner, na Rua dos Andradas, para pegar suas escrituras.

A grande curiosidade da Leopoldina é seu nome: ao contrário do que muitos pensam, não é em homenagem à princesa, mas sim em referência a dona Leopoldina Kleeberg, uma das sócias da empresa loteadora. Segundo o site da Memória Votorantim, o acesso ao bairro era complicado, sendo os trens, bondes e barcos a vapor as principais alternativas para quem queria chegar à região.

Detalhe de mapa da cidade de São Paulo, mostrando a configuração do bairro da Vila Leopoldina em 1924.

Como não poderia deixar de ser, a história da Leopoldina está ligada à Lapa. Esse segundo bairro, que já foi retratado aqui na SP In Foco, recebeu forte investimento financeiro devido às oficinas da São Paulo Railway, o que moldou sua estrutura inicial. Graças a essa empresa de trem e, posteriormente, a Light, a Vila Leopoldina teve, logo de cara, linhas de bonde e eletricidade em sua estrutura.

Se somarmos esse fator com os valores baratos dos terrenos e a mão de obra, majoritariamente imigrante, era um prato cheio para atrair indústrias para a região, como foi o caso da Cia. Fiat Lux, Metalúrgica Martins Ferreira e a Fábrica de Tecidos e Tecelagem Lapa. Nos anos 30, com as retificações dos rios, mais terrenos propícios para as indústrias “surgiram”, afinal, era muita água que poderia ser usada se a planta fosse construída perto da fonte de água.

Dessa maneira, outras empresas como a Metalúrgica Atlas, do Grupo Votorantim, apareceram por lá. Os anos 50 e 60 também foram fundamentais para a região, quando surgiu o Mercado da Lapa e o antigo Ceasa (Centro Estadual de Abastecimento Sociedade Anônima), atual Ceagesp.

Equipamentos e maquinários da Metalúrgica Altas, década de 1960

A chegada dos anos 90 trouxe uma grande valorização para a Leopoldina, como a construção do Parque Villa-Lobos, assim como a evolução do bairro industrial em um polo de produção cultural: diversas produtoras e agências de cinema se instalaram por ali, e utilizaram os antigos galpões das indústrias como estúdios de filmes e conteúdo publicitário – grandes peças do cinema brasileiro foram produzidas na região, como parte do consagrado “Cidade de Deus” (2002) da produtora O2.

Trecho da Marginal Tietê na Vila Leopoldina, onde draga e máquinas trabalhavam no combate às enchentes no Rio Tietê, na década de 80

Referência: https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,a-historia-da-vila-leopoldina,1770587

https://www.memoriavotorantim.com/blog/historia/vila-leopoldina/

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