Os fliperamas dos anos 70: a história da Taito

Que a indústria atual de games mexe com bilhões de reais (e euros e dólares) por ano, não é novidade. Mas, especialmente para mim, é novidade saber que a febre dos videogames, antigos fliperamas, começou há 50 anos no Brasil. E tudo isso graças a uma empresa com nome japonês, mas com um fundador russo. Essa é a Taito, tema de hoje.

A Taito foi fundada por um russo chamado Michael Kogan, que imigrou para a China em 1917 e, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, foi para o Japão, onde fundou, em 1953, uma empresa que faria de tudo: de vodka até máquinas de venda de amendoins. Esse empreendimento chamava: Taito Trading Company.

Os fliperamas só passaram a fazer parte da carta de produtos da empresa a partir de 1960, quando a companhia passou a produzir as máquinas em boa escala. O primeiro jogo de arcade lançado pela empresa nessas plataformas foi o Elepong que, alguns fanáticos, dizem ser o precursor do Pong, da Atari. Foi também neste ano que a empresa ganhou o nome que seria conhecido no Brasil: Taito Corporation.

Foi com este novo nome que, em 1978, a Taito mudou a história dos jogos eletrônicos ao lançar o Space Invaders, que no Japão fez tanto sucesso a ponto de levar à criação de fliperamas dedicados. Há uma lenda urbana que, por um breve período, as cidades japonesas tiveram problemas de disponibilidade de moedas, já que todas iam direto para os milhares de fliperamas espalhados pela terra do sol nascente.

A empresa no Brasil

Essa parte da história que contei para vocês é uma parte razoavelmente fácil de ser entendida. A chegada ao Brasil que é, digamos, mais complicada. Segundo um fórum de discussões na internet, João Luís Costa, um dos primeiros funcionários da empresa, a operação da Taito no Brasil começou em 1968, sob os nomes de “Trevo Diversões Eletrônicas” e, logo depois, “Trevo Diversões – Representante da Taito no Brasil”.

Esses nomes “aleatórios”, foram uma manobra encontrada para burlar a legislação da época. Explico: era preciso que a empresa externa se associasse a uma empresa nacional para importar produtos eletrônicos. A Taito, portanto, seguiu por esse caminho para trazer os fliperamas para cá.

A filial brasileira inicialmente importava máquinas de pinball dos EUA e componentes japoneses para montagem delas no Brasil, distribuindo-as ou mesmo operando-as no mercado nacional.

Nesses primeiros anos brasileiros da Taito, a operação própria de fliperama era intensa em São Paulo: além da locação de máquinas, o primeiro fliperama próprio da Taito por aqui foi instalado na Avenida Ipiranga, na esquina com a São João; em seguida vieram um em frente ao Largo do Arouche, e o campeão de faturamento na época, em frente à praça da República.

A existência da Taito no Brasil não foi fácil: durante alguns anos precisou lutar contra a taxação à importação de bens de consumo supérfluos (incluindo as máquinas de jogos) e contra o entendimento de que o pinball era jogo de azar e, portanto, proibido.

Essa fase acabou em julho de 1976, quando a publicação da Resolução n. 1 da Comissão de Coordenação das Atividades de Processamento Eletrônico (CAPRE) trouxe um obstáculo: começou a criar uma Reserva de Mercado para computadores no Brasil (que foi sendo ampliada ano após ano, até se consolidar, com uma lei própria, em 1984, que vigorou até 1992), e isso atingiu de forma direta a importação de máquinas de jogo eletrônico.

Novamente, pensando em se manter na ativa, a Taito fez o seguinte: montou uma fábrica em SP, comprou empresas menores (como Liberty, Flipermatic e Mecatronics) que atuavam no mesmo mercado, e começou a criar imitações nacionais de aparelhos do exterior.

Fábrica da Taito em São Paulo

Entre as grandes criações da empresa, estão: Cavaleiro Negro (com seu sintetizador de voz), Oba Oba (homenagem à casa de shows do Sargentelli), Zarza, Rally, Vortex e muitas outras.

Dentre as mais de 30 máquinas de pinball produzidas pela Taito do Brasil nos seus cerca de 10 anos de produção, consta que a de maior sucesso comercial foi a Cosmic, versão nacionalizada da Galaxy, feita pela Stern – ambas lançadas em 1980.

Registro da Cosmic, máquina de extremo sucesso da Taito

Pouco antes de fechar as portas, a Taito do Brasil lançou algumas máquinas de pinball usando o processador Z80, da Zilog e usado em boa parte dos computadores pessoais da década de 80, incluindo o MSX, e até no videogame Master System, da Sega. Por falar na Sega, vale uma observação: a Taito do Brasil era a dona da marca Sega no nosso país.

Antes de encerrar suas operações, a empresa vendeu a marca para a TecToy, por um valor elevado (mas controverso – uns dizem US$ 200.000, outros dizem US$ 1 milhão).

A história da Taito se encerra com a vida do fundador da empresa. Michael Kogan, fundador da Taito japonesa, morreu subitamente durante uma viagem de negócios aos EUA, o que levou a um breve período em que a companhia foi administrada diretamente pelos funcionários, até ser adquirida pela Kyocera, em 1986 (em 2005 a Kyocera a vendeu para a Square Enix, sua atual proprietária).

Fonte principal do texto: http://augustocampos.net/taito-brasil/

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