A terceira carta de Anchieta: órfãos, espírito de “fornicação” e a dificuldade da língua

A terceira carta de Anchieta a Ignácio de Loyola traz mais dificuldades enfrentadas pelos jesuítas em São Paulo. O padre fala de órfãos, do espírito de “fornicação” dos índios e das mulheres que andam nuas. Também destaca os problemas com a língua daqui e a dificuldade de conversão dos chamados “infiéis”.

A carta, na íntegra, está abaixo. Boa leitura.

Carta do Irmão José de Anchieta a Santo Ignácio de Loyola

Piratininga, julho de 1554

Jesus Maria

A paz de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre em nossas almas

Além.

Mui Reverendo em Cristo Padre.

Todo este tempo que havemos estado aqui, nos mandaram de Porto alguns dos meninos órfãos, aos quais tivemos e temos conosco, sustentando-os com muito trabalho e dificuldade. Isso nos moveu a que recolhêssemos aqui também alguns órfãos, principalmente dos mestiços da terra, assim para os amparar e ensinar, porquê é a mais perdida gente desta terra.

E alguns piores que os mesmos índios (como disse na quadrimestre de agosto) e temos que é tão importante ganhar um destes como ganhar um índio, porque neles está muita parte da edificação ou destruição da terra, como também porque são línguas e intérpretes para nos ajudar na conversão dos gentios. E dentro eles os que fossem suficientes e tivessem boas partes recolhê-los por irmãos, e aos que não fossem tais dar-lhes vida por outra via.

Quis agora Deus Nosso Senhor , por sua misericórdia, dar-nos a conhecer que não é gente de que se deva fazer caso para a conversão dos infiéis. Porque um deles, que era casado, e outros dois, de que fazíamos alguma conta, tentados do espírito de fornicação, fugiram no mês de julho. Pôs-se logo muito côbro e diligência e apanharam-nos. Isso nos deu bem claro conhecimento deles.

Pareceu por isso a nossa padre, juntamente com os irmãos todos, a quem tudo comunicou, encomendando-o a Nosso Senhor, que será grande serviço de Deus tê-los e criá-los na mesma conta que os índios.

E, ao chegarem aos anos da discrição, mandá-los a Espanha, onde há menos inconvenientes e perigos para serem ruins, do que aqui, onde as mulheres andam nuas e não se sabem negar a ninguém, antes elas mesmas acometem e importunam aos homens, lançando-se com eles nas redes, porque têm por honra dormir com os cristãos.

E assim quererá Nosso Senhor que daqui a oito ou nove anos, sendo eles o que devem e tendo as partes que se requerem para a Companhia, vindo a estas regiões, farão grande fruto nos gentios, o que agora não fazem porque não têm nenhuma autoridade entre eles.

E, da mesma forma, se se houvessem de fazer aqui casas da Companhia, seria bom que fizéssemos troca com os irmãos do Colégio de Coimbra, de maneira que nos mandassem para cá os mal dispostos de lá, contanto que tenham fundamento de virtude, os quais aqui sarariam com os trabalhos e bondade da terra, como temos experimentado nos enfermos que de lá vieram, e aprenderiam a língua dos índios.

E daqui lhe enviaríamos destes mestiços, dos quais alguns que tivessem qualidades para ser irmãos, recolhessem nos colégios, e aos que não (as tivessem) colocassem nas casas dos órfãos, como agora se faz com alguns deles. E isto é grande serviço de Deus, porque estes (como já disse), se são ruins, destroem o edificado.

A superintendência sobre eles se devia ter pelos padres da Companhia, separadamente dos irmãos. E a resolução disto V.R. Paternidade, juntamente com o padre provincial, devia negociar com EL-Rei, por ser grande honra de Deus e proveito de seu reino.

E porque destas e outras coisas não se pode dar informação bastante por escrito, mandou nosso padre este ano ao Pe. Leonardo Nunes, que leva tudo em apontamento para praticar com V.R.Paternidade e Sua Alteza.

Estando nosso padre na Bahia de Todos os Santos, determinou Sua Alteza mandar doze homens pelo sertão a descobrir ouro, que diziam existir, para que o Governador Tomé de Souza pediu um padre, que fosse com eles em lugar de Cristo, afim de não irem desamparados.

E para nosso padre o não poder negar, e principalmente por descobrir muitas gerações que sabia por informação haver naquelas paragens, muito boas, e vendo tão boa ocasião por serem aqueles grandes línguas e [homens] escolhidos, mandou com ele ao Pe. Navarro.

Eles vão buscar ouro, e ele vai buscar tesouro de almas, que naqueles lugares há muito copioso. E por aquelas partes cremos se entra até às Aamazonas. Agora tivemos notícias de que no mês de março de 1554, entraram pela Capitania, que chamam de Porto Seguro. E o mais que suceder, da Bahia se escreverá.

Do mês de julho de 1554, de Piratininga.

Por comissão do Reverendo em Cristo
Padre Manuel de Nóbrega.
O mínimo da Companhia de Jesus, José.

Referência: Livro: Minhas Cartas, por José de Anchieta

Se quiserem ler a primeira carta: https://www.saopauloinfoco.com.br/cartas-de-anchieta-e-a-certidao-de-batismo-de-sp/

Se quiserem ler a segunda carta: https://www.saopauloinfoco.com.br/a-segunda-carta-de-anchieta/

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