A “água verdadeira”: uma história do Rio Tietê

Já tomei a liberdade de contar a história de algumas paisagens naturais da nossa cidade por aqui. É uma tarefa, digamos assim, complicada e cheia de buracos históricos, por não terem registrado fatos corretamente ou por não terem se preocupado com isso na época.

Vou me aventurar a contar a história do Rio Tietê que, infelizmente, se tornou sinônimo de poluição e falta de cuidado, tanto do poder público, quanto de quem o polui propositalmente. Um dos documentos mais completos e sucintos sobre esse tema, foi um pequeno livro (referenciado ao final do texto) que encontrei em um dos muitos sebos da nossa cidade.

Nesse informativo de 1992, Luiz Antonio Fleury Filho, então governador de São Paulo, diz o seguinte em seu prefácio:

“Hoje (1992), acredito, há esperanças. Em 31 de janeiro de 1992, o governo do Estado de São Paulo anunciou o Programa de Despoluição do Rio Tietê. A meta é ambiciosa, mas possível: chegar a 1994, quase no final da minha gestão, com 50% do rio despoluído. As duas fontes de poluição – os esgotos domésticos e os efluentes industriais – serão duramente atacadas, por meio da construção de redes de esgoto e estações de tratamento, e do controle da sujeira despejada pela indústria no Rio Tietê e seus afluentes.”.

Segundo a publicação, há quase 30 anos, era lançado o primeiro programa para despoluir o rio. Sem entrar em méritos partidários, mas esse tempo todo passou e nada foi feito (ou foi feito muito pouco).

O que eu queria demonstrar com essa pequena introdução é a de que, durante décadas, nosso rio foi deixado de lado. Mais do que recursos naturais, ele tem uma importância fundamental para a nossa história, tanto de formação de cidade, quanto de manutenção da vida humana no planalto. Vamos à esse registro.

O Rio Tietê é particular no que diz respeito à sua nascente. Ele surge na cidade de Salesópolis, há pouco mais de 20 quilômetros de São Paulo e, ao contrário de outros rios, corre para o continente, em direção ao centro do estado, e não para o Oceano Atlântico. Seu trajeto tem cerca de 1.150 quilômetros e vai até o Rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul.

Placa localizada em Salesópolis com a nascente do Rio Tietê

Esse tamanho sobrenatural explica muito do surgimento de São Paulo. Segundo o documento supracitado, São Paulo foi a primeira cidade que foi fundada em suas margens, sendo seguida por missões de jesuítas como as de Guarulhos, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Freguesia do Ó, Santana de Parnaíba e Porto Feliz.

Toda essa extensão e consequente abundância de vida animal, tornou o rio Tietê (que era conhecido também como Anhambi) um ponto de subsistência e diversão para os índios e jesuítas. Seu nome vem do tupi e significa “rio verdadeiro”.

Esse tamanho todo também foi importante para expedições de exploração, como as que procuraram ouro pelo território brasileiro e, anos depois, resultaram na fundação de outras cidades grandes do Brasil, como Cuiabá, em 1718.

Setenta anos depois, às margens do rio Tietê, surgiu uma pequena planta que, mais tarde entraria para a cultura do país: um pé de café. Segundo registros, em 1788, José Arouche, que se tornaria um marechal no futuro, colhia café em sua chácara da Casa Verde, em uma plantação familiar.

O começo do fim

Por muitos anos o Rio Tietê seria poupado. Seja pelo lento desenvolvimento de São Paulo ou porque, até então, éramos poucos moradores da cidade e, por consequência, poluíamos menos os rios.

As várzeas começaram a sofrer com a interferência humana apenas em 1866, quando o então presidente de São Paulo, João Alfredo Correia de Oliveira, defende que as margens dos rios Tietê e Tamanduateí fossem drenadas. No ano seguinte, a ferrovia Santos-Jundiaí era inaugurada e passava, claro, por São Paulo.

Dois fatos históricos acabam por mudar a história do rio Tietê em São Paulo: a Proclamação da República e a abolição da escravidão. O primeiro fator obrigou São Paulo a procurar se industrializar, perdendo seu caráter rural, já que o poder público já observava seu potencial de crescimento e produção.

O segundo obrigou os “”investidores”” a procurarem onde colocar seu dinheiro, sem ser na mão de obra escrava e em ações da ferrovia. Com isso, uma discussão sobre saneamento básico começa a crescer pelo país e, claro, por São Paulo.

Outro ponto fundamental da história fica pela chegada da empresa canadense Light em São Paulo no ano de 1899. Foi a Light a responsável por instalar a primeira usina no Rio Tietê, a hidrelétrica de Parnaíba em 23 de setembro de 1901.

Partida da expedição que explorou o rio Tietê em 1905

Além de ser a primeira do Tietê, também foi a primeira da empresa no país. Com ela, era possível abastecer a demanda por eletricidade dos bondes elétricos e, até mesmo, das residências de uma cidade que começava a crescer em um ritmo acelerado.

Nos anos seguintes, a população de São Paulo já havia transposto a várzea do rio. A cidade alcançava regiões até então distantes, como Brás, Pari, Barra Funda e a Lapa. Já tínhamos uma “população operária” e a necessidade de mais redes de esgoto era gritante. Aliado a isso, ocupamos as várzeas dos rios Tamanduateí e Tietê, o que culminou com as terríveis enchentes de 1906 e 1929.

Não preciso dizer que a ocupação das várzeas, por indústrias, fábricas e moradias acabaram culminando com mais e mais dejetos jogados no rio. Claro que isso, aliado aos olhos fechados do poder público, ajudaram a piorar a situação. Mas nem tudo era ruim.

Enchente do Rio Tietê na zona norte da capital paulista entre 1920-1930

Em fases de calmaria, com o rio mais baixo, as margens eram palco de animados jogos de futebol, serenatas e o rio era palco de disputas esportivas. Os famosos Vermelhinhos do Tietê não me deixam mentir. Provas aquáticas, como remo e nado, eram tradicionais históricas. Hoje, apenas lembranças.

Prova a nado no Rio Tietê em 1944
A morte

Na foto antes desse subtítulo, podemos ver a famosa prova a nado do Rio Tietê. Ela merecerá um texto especial sobre origem e ganhadores, mas o ponto é que essa prova, de 1944, foi uma das últimas. O nosso Mário de Andrade, em seu poema “A meditação sobre o rio Tietê”, já falava em “água pesada e oliosa”, na realidade, as águas poluídas de um rio fundamental para São Paulo.

A poluição, que já era comum desde 1930, pioraria ainda mais nos anos subsequentes. Em 1951, por exemplo, no jornal Correio Paulistano, uma das matérias, sobre o tratamento de esgotos, chega a falar que (respeitada a grafia da época): “Hoje que São Paulo, com os seus 2.200.000 de habitantes, se inclui entre as autênticas metropoles tentaculares, voltamos o nosso pensamento aflito às palavras contidas no Relatório de 1950, da digna Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê: “A poluição das águas do rio é hoje de tal ordem que não é exagero dizer-se que o tratamento dos esgotos, em São Paulo, já é uma questão de decoro para a cidade”.”.

Segundo o livro já citado sobre o Tietê, em 1955, uma sugestão do prefeito Adhemar de Barros acabou por interligar toda a rede de esgotos de São Paulo, incluindo residências e indústrias, que terminavam no Tietê.

Rio Tietê na década de 1950, na época que a poluição tornou impossível a prática aquática no local

Dos anos 80 adiante, o rio se tornou um polo de poluição, um cheiro terrível e incredulidade da população para sua despoluição. Vale o incrível registro do jacaré Teimoso que, em 1990, ainda deu seus mergulhos pelo Tietê.

Depois de 2 meses de buscas, Teimoso foi capturado e levado para o zoológico

Prefeito após prefeito, governador após governador, a promessa de despoluir o rio permanece. A nós, moradores de São Paulo, resta torcer para que algum dia, ela se concretize.

Enquanto isso não acontece, só podemos curtir o rio por fotos antigas, como as que compuseram o texto e essas três que seguem.

Famosa foto de uma pessoa mergulhado no rio Tietê. Imagem sem data
Registro do Tietê em 1905
Pessoas mergulhando no Tietê em 1926, onde hoje fica a Ponte das Bandeiras

Referência: “Livro Vida, morte, vida do Tietê – A história de um rio de São Paulo”

Galeria de fotos antigas do Rio Tietê: https://acervo.estadao.com.br/noticias/lugares,rio-tiete,8360,0.htm

Edição do Correio Paulistano de 1951, número: 29.198: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_10/6655

5 comentários em “A “água verdadeira”: uma história do Rio Tietê

  • 9 de junho de 2020 em 22:11
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    “CONHEÇO” O RIO TIETÊ, DESDE O ANO DE 1939, QUANDO FUI MORAR NO BAIRRO DE SANTANA, VINDO DO INTERIOR DO ESTADO…CONHECI A “ANTIGA PONTE GRANDE” E QUANDO PRECISÁVAMOS DE “TROCAR” DE BONDE, AO CHEGAR NA ANTIGA PONTE !!! (A ATUAL, FOI INAUGURADA EM 1941…) LEMBRO-ME DE SUAS ÁGUAS CRISTALINAS E AINDA, “ANTES DA “RETIFICAÇÃO”, FEITA (SE NÃO ME ENGANO) NO GOVERNO ADHEMAR DE BARROS (AÍ, PELOS “MEADOS” DOS ANOS 1940…) O RIO TIETÊ, TINHA UMA PEQUENA “QUEBRADA” D’ÁGUA, DEFRONTE AO CLUBE ATLETIC, QUE, INFELIZMENTE, DESAPARECEU, COM A “RETIFICAÇÃO”… !!! UMA PENA !!! FUI SÓCIO DO “CLUBE DE REGATAS TIETÊ, DURANTE 5 ANOS …(DE 1947 ATÉ 1952 !!!) SAUDADES !!!

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  • 26 de junho de 2020 em 17:53
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    O rio Tietê tem que ser privatizado. E precisamos de um livre mercado de saneamento. Os paulistas merecem um belo rio limpo. Eu amo São Paulo.

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  • 20 de julho de 2020 em 13:52
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    meu nome e roberto de barros sou morador do bairro da lapa a 85 anos conheci o tiete quando ainda nadava no mesmo e o peesoal que mora na cidade fazia piqui nique em suas margem tempos bos aquele nas margens do tiete na lapa tinha as varzeas onde tinham varias olarias as quais deram progresso ao nosso bairro que
    saudades dos tempos passados os quais ficara em nosso memoria lapeana obrigado
    por ter podido expressar as minhas lembranças espero que um dia possamos ver nosso querido tiete despoluido.

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  • 8 de agosto de 2020 em 15:30
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    Nasci, na década de 60 e vivi até meus treze anos à beira do Rio Tiete que passava pela cidade de Porto Feliz. Morávamos em um casarão construído pela prefeitura e meu pai era funcionário publico responsável pela casa das Maquinas: que compreendia a casa das Bombas, ou das Maquinas, que enviava a água tratada para a cidade e a casa da Energia Eletrica. Em 1973 nos mudamos de la por ficou inviavel e impossível o tratamento da agua do rio Tiete sendo que a agua para consumo da população passou a ser captada pelo Ribeirão Avecuia pra onde meu pai foi transferido e nós, eu então com treze anos, nos mudamos para outro lugar na cidade, também devido ao insuportável mau cheiro do rio.
    Tenho lembranças maravilhosas de quando aos domingos muitas pessoas ali iam para banhar-se, brincar, fazer piqueniques. Lembro-me de que, eu, meus irmão, primos e amigos brincavamos e nos divertiamos muitos nas aguas daquele rio. Porem, a lembrança mais triste que tenho, a passagem crucial que demonstrava o grande nivel da degradaçao quando em uma manha levantei-me e vi o rio todo prateado de peixes mortos, daqui em diante, dia a dia, só piorava a situação do rio com o lançamento de dejetos químicos poluentes, apareciam manchas de óleos, espumas em quantidades e volumes assustadores, mau cheiro, objetos que desciam rio abaixo, mesas, cadeiras, pneus, lixo de toda sorte, era realmente de cortar o coração tão drástica e rápida mudança que se observava na paisagem do rio. Meu irmão mais velho, trabalhava no Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Porto Feliz e inconformado por vivenciar tanta judiação tornou-se defensor ferrenho do meio ambiente escrevendo aos jornais, Folha de São Paulo, Cruzeiro do Sul e outros, indignado com os rumos que o descaso com o meio ambiente era tratado pelas autoridades e órgãos públicos, por isso tinha grandes projetos para ajudar no combate a destruição do meio ambiente na cidade, conseguiu implantar alguns, tinha grandes projetos, mas os caminhos eram difíceis esbarravam em interesses e entraves . Realmente, triste é a memoria de quem acompanhou o tempo recorde, a velocidade da degradação pela qual passou o rio Tiete, mas também é doce a memoria ainda que pequena, guardada de um tempo em que o rio era relativamente limpo e bonito e que não fosse a hipocrisia do homem, sua ganancia e desprezo pela natureza havia meios de se promover a sustentabilidade desse meio ambiente sem que acabasse por causar tanto mal a água dos rios. O imediatismo e o oportunismo impedem e cegam aqueles que teriam como missão zelar pelo bem natural, o bem de todos. Triste realidade!!!

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  • 8 de agosto de 2020 em 15:36
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    Como faço pra postar foto da Casa das Maquinas a beira do do Rio Tiete?

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