A festa do Largo São Francisco: a história da Peruada

A festa da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, a peruada, costuma acontecer na terceira sexta-feira do mês de outubro. É uma manifestação tradicional dos estudantes, que marcou gerações de advogados por todo o Brasil.

Mas, apesar de ser considerada uma “festa do direito”, outros cursos também tiveram festas que também foram conhecidas como peruada.

Explicamos toda essa história abaixo.

Comecemos pela festa que é a mais famosa, a do Centro Acadêmico XI de Agosto. Registros dão conta de quem a Peruada surgiu no ano de 1948, quando 33 sócios do centro acadêmico da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, presidido por Rogê Ferreira, furtaram nove perus que pertenciam ao professor Mário Marzagão, que lecionava na própria faculdade. Vale o registro histórico de que esses animais foram premiados na Exposição Nacional de Animais do Parque da Água Branca.

Os animais foram assados e comidos. Esse episódio acabou gerando um editorial do Estadão com o seguinte título: “Estudantada ou Vandalismo?”.

Polêmicas à parte, segundo o livro histórico que consultamos, foi nesse momento em que surgiu a chamada “Ordem do Peru”, para contrapor-se à outros grupos existentes na época: a Ordem da Capivara, quando alunos furtaram um desses animais do Parque da Luz em 1941; Ordem do Veado, quando esse animal foi furtado, em 1943, também no Parque da Luz; e a Ordem do Corvo, que surgiu em 1945, quando um desses animais foi furtado e enviado ao então presidente Getúlio Vargas.

Mas, pesquisando um pouco mais a fundo, há uma clara distorção de datas no surgimento da festa. Em recortes de 1935, por exemplo, já se falava em uma “peruada” dos alunos de direito. Essa festa, inclusive, já tinha fotos e um roteiro pelo centro de São Paulo.

Todos esses acontecimentos ajudaram a construir a “tradição” da peruada que, com o tempo, se tornou uma festa que sempre conta com protestos e sátiras políticas.

Inclusive, durante o período do Regime Militar, a festa contou com esse tipo de protesto, de maneira pacífica, o que marcou ainda mais essa tradição.

Peruada registrada no ano de 1942

Outras festas com o nome “peruada”

Apesar da disseminação do nome peruada ser graças aos alunos da faculdade de direito do Largo São Francisco, durante muito tempo, outros cursos tinham uma festa com esse nome. Na verdade, era quase um conceito o curso ter uma festa chamada peruada. Uma das “provas” dessa afirmação fica por conta de um artigo escrito pelos representantes da Escola Polytechnica, publicado no dia 17 de março de 1936.

“Ao estudante que commummente recebe o nome de “bicho enfeitado” (devido a ter sido “bicho” no anno anterior), é que moralmente compete dar trote aos calouros. Aquelles, poucas vezes, se eximem da incumbência devido a sede” que se acham possuídos….A palavra “bicho” é synonima de calouro, na Polytechnica. Quando os calouros entram, geralmente em turmas (ahi a  união não faz a força), surge a turma de veteranos a gritar:

– Bicho é hoje, Bicho…

E a pancadaria surge grossa.

No outro dia a mesma coisa. E assim mezes, até o dia do “trote” verdadeiro, conhecido por “peruada”.

Vezes ha, em que o trote ministrado pelos “enfeitados” é tão perfeito, que empolga aos veteranos e então é comum surgirem cabeças rapadas e o diabo, enfim.”.

Uma possível origem do nome “peruada”, portanto, é o apelido que o “bicho enfeitado”, nome dado aos segundaristas, teria nos anos 30: um peru. Ou seja, um estudante que ainda é novo na faculdade, mas que já tem seus “bichos”, seus calouros.

Não é impossível e nem improvável imaginar que a festa do Largo São Francisco chame peruada devido à libertação dos calouros do primeiro ano do curso. Nessa festa, claro, os jovens são conduzidos pelos segundanistas, os verdadeiros “perus”. O furto dos perus que citamos no começo do texto só traz mais sabor ao “folclore” sobre o nome dessa festa.

Abaixo, outros recortes antigos de jornal onde o nome “peruada” é recorrente.

Recorte de 1º de abril de 1936
Recorte da peruada de medicina em 1937

Referência: A heróica pancada – Centro Acadêmico XI de agosto – 100 anos de lutas (Livro – página 125)

A peruada dos calouros da Faculdade de Pharmacia e Odontologia de Campinas: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_08/11803

Registro da Peruada em 1942: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_09/11390

A peruada dos calouros da Faculdade de Pharmacia e Odontologia de Campinas: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_08/11803

Peruada da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo (de 23 de maio de 1937): http://memoria.bn.br/DocReader/090972_08/18476 

Fotos da Peruada de 1935: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_08/7851

A “peruada” dos estudantes da Polytechnica em 1935: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_08/7804

– O dia do trote verdadeiro, conhecido como “peruada”, em artigo da Polytechnica: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_08/11584  (17 de março 1936)

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