O telefone na casca do ovo: a história do orelhão e a invenção de Chu Ming Silveira

Um item que já foi obrigatório em cada esquina, especialmente quando não existiam celulares, smartphones e computadores, tem uma curiosa história de surgimento. O orelhão, que obrigava milhares de pessoas a comprarem fichas (ou colecionaram cartões com crédito) foi uma invenção da chinesa Chu Ming Silveira.

Nascida na cidade de Xangai, Chu Ming imigrou para o Brasil em 1951 com a família. Com o passar do tempo, Chu Ming se interessou por arquitetura e se formou neste curso na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Já nos anos 70, quando exercia o cargo de chefe Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira, ela foi “desafiada” por seus superiores: seria possível colocar um telefone em cada esquina do Brasil de uma maneira segura e confortável para os usuários?

Com muito empenho e paciência, Chu Ming se debruçou sobre a prancheta e começou a fazer alguns desenhos. Sabia que um equipamento desses estaria exposto aos fenômenos naturais, ao vandalismo e teria que, de alguma forma, se integrar com o ambiente urbano ao redor. Não era uma tarefa das mais simples.

Após muito pensar e refletir, Chu Ming criou dois tipos de aparelho: o Chu I, que seria usado em ambientes internos como lojas e prédios públicos, apelidado de orelhinha e o Chu II, equipamento com feito de fibra de vidro para proteger os usuários do sol e da chuva e aguentar mudanças de temperatura. Esse se tornou o famoso orelhão.

O desenho do orelhão, tanto o que seria usado em lojas e locais fechados, quanto os de rua, foram inspirados nas cascas de ovos, até para manter uma boa acústica durante as ligações, segundo a própria arquiteta. A ideia Chu Ming era a de oferecer proteção e privacidade para as pessoas, tais quais as cabines telefônicas de Londres.

A ideia do orelhão foi genial e o sucesso praticamente imediato. Em algumas fontes constam que o primeiro aparelho entrou em funcionamento no Rio de Janeiro, no dia 20 de janeiro de 1972. Curiosamente, o primeiro orelhão de São Paulo começou a operar em 25 de janeiro do mesmo ano, no dia do aniversário da cidade.

O trabalho da arquiteta foi largamente reconhecido e exportado para países como: Moçambique, Angola, Paraguai e Colômbia. O sucesso desse equipamento foi tão estrondoso que até mesmo Carlos Drummond de Andrade escreveu uma crônica sobre isso. Abaixo, o delicioso texto:

“De repente – notaram? – a rua melhorou em São Paulo, com o aparecimento do telefone-capacete. Bem que eu queria falar sobre ele, mas bobeei, e Ziraldo, com aquele humour (sic) que não pede licença para explodir , disse em cartoon o que eu tentaria escrever sobre o Orelhão. Ah, Ziraldo, isso não se faz.: ter, antes dos outros, as melhores idéias!

A verdade é que a rua ficou sendo outra coisa, com as pessoas descobrindo que não precisam mais fazer fila no boteco ou na farmácia para dar um recado telefônico. Na própria calçada, uma vez comprada a ficha no jornaleiro, comunicam-se. Tão simples. Em outras cidades desse mundinho que é o mundo, já se fazia isso há muito tempo, mas aqui é novidade grande/ gostosa.

A primeira experiência foi aquele fiasco. As cabinas cilíndricas despertaram a agressividade, o instinto predatório de alguns , e logo se tornaram ruínas. O usuário repelia a dádiva. Eram feias? Nem por isso. Eram úteis, mas os destruidores não repararam na utilidade. Vingavam-se, talvez, nas pobres cabinas, das frustrações e irritações acumuladas durante anos de mau serviço telefônico. Para não falar no gosto puro e simples de arrebentar, que dorme nas cavernas psíquicas do suposto civilizado, e que, se ninguém está perto para servir de alvo, ou com receio de levar a pior na arrebentação, desaba sobre as coisas, que não reagem.

A CTB não desanimou, e saiu-se com o telefone protegido por uma cuia invertida: um, dois, três aparelhos geminados. Agiu tão depressa, e bolou tão bem a coisa, que os vândalos ficaram tontos e não contra-atacaram, senão em escala mínima. A população tomou conta das cabinas, que não são cabinas, são uma cuia gozada, a céu aberto, uma cuia que fala. Simpatizou com elas. Aprovou-as.

A arquiteta e sua invenção

Então começamos a reparar que a rua é afinal uma boa coisa, apesar dos automóveis que a entopem ou que fazem dela pista para treinamento para fittipaldis em potencial. E, na rua, a calçada é aquela parte boa em que é bom ir e vir, parar e até telefonar. Com depósitos metálicos onde você pode colocar o seu papel de sorvete.

Com pontos de parada de coletivos, que indicam números de linhas à sua escolha. São pequenas viagens que se oferecem, em todas as direções. Sucedem-se as placas, prestando informações que todo mundo consome, sem ligar para o esforço que toda essa sinalização representa. Uma série de códigos em ação para sua segurança.

O hidrante está li, prevenido, para você poder continuar desprevenido. Ao lado dele, o telefone vermelho dos bombeiros. As pedrinhas que você pisa procuram diverti-lo, formando arabescos em preto e branco; de vez em quando interrompem o desenho para dar espaço a tampas que vedam condutos subterrâneos de que dependem a sua higiene, o seu conforto domiciliar, a sua vida.

No leito da rua, pintaram listas amarelas que lhe permitem passar incólume, com ar superior de pedestre que despreza os motorizados, em frente à massa de carros subitamente imobilizados, impotentes para massacrá-lo.

E não falei em outros serviços e dedicações mudas da rua para o citadino: a rua oferecida em árvores, toldos, lojas de tudo, escritórios, consultórios, jardins, cinemas, igrejas, oficinas; a rua, enciclopédia de utilidades e favores gerais. Tudo isso representando investimento, e que investimento colossal é a rua.

Nós a estimamos pouco, não sabemos prezá-la. Cuspir na rua, jogar-lhe detritos, conspurcá-la, são pecados que cometemos sem sentir, de tão habituados. Cobrar-lhe os defeitos, as lacunas, é costume velho. Mas celebrar-lhe e preservar-lhe as excelências, disso ninguém se lembra. Agora, o telefone-cuia dá ensejo para rimar, com satisfação”

Viva a cuia, aleluia!

E diz-se que vem aí uma nova caixa de correio, para aumentar as amenidades da rua. As que havia, raras e pesadonas, eram demasiado republicanas, com as armas nacionais em relevo dando a impressão de que só o Quintino Bocaiúva podia botar lá dentro sua correspondência; quem fosse monarquista, anarquista ou nada, estaria excluído.

Desejo que a EBCT faça como a CBT: peça a um industrial designer que bole a caixa diferente, atraente, simpática: enfim, uma caixa que desperte no brasileiro, tão incorrespondente por natureza e por má educação, o desejo de escrever cartas, para o prazer de botá-las numa caixa bacana, a dois passos de casa; porque sendo a duzentos passos, o brasileiro desiste de escrever, mesmo que seja para pedir dinheiro ao pai.”.

Orelhão transparente, um projeto da arquiteta Chu Ming Silveira

Após desenvolver o projeto que lhe deu referência, Chu Ming ainda contribuiu com outras ideias. Em 1974, por exemplo, a pedido da Prefeitura, projetou modelos para bancas de jornais e de flores, a serem construídos em fibra de vidro, como os protetores telefônicos que a notabilizaram. No ano seguinte, em 75, os orelhões azuis, para chamadas interurbanas começaram a ser instalados pela cidade.

Depois de todas essas contribuições, a arquiteta foi para Ilhabela, em busca do merecido descanso. Por lá, desenvolveu um estilo que ficou conhecido como “pós-caiçara”, em que utilizava materiais e técnicas contemporâneas em harmonia com a cultura tradicional caiçara. A arquiteta faleceu, em São Paulo, aos 56 anos.

Primeiros Orelinhas no prédio da companhia telefônica CTB no centro de São Paulo

Link de referência: https://casa.abril.com.br/design/50-anos-do-orelhao/

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/04/tecnologia/1491320931_864280.html

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